Sobre a moda

Já não estamos vestidos quando arrastamos alguém ao pecado, quando desempenhamos a obra do demônio. Trazemos velado o corpo visto que, para nós, represente o templo do Espírito Santo, e não toleramos que a pureza imaculada desse altar sagrado sofra o atentado de um só olhar ardente, um só olhar de concupiscência.


Por Dom Tihamér Tóth

Meus irmãos, para não fazer alarde e não arriscar aqueles que me ouvem à contingência de um juízo temerário, seria preferível apresentar o assunto sob a fantasia delicada de uma fábula. E a história começa...

Certa vez, um caçador atirou numa gansa brava, conseguindo arrancar-lhe somente algumas penas; fê-lo, todavia, com tanta infelicidade que sobraram duas delas na cauda da pobre ave. Nesse estado, como voltar para junto das companheiras? Seria naturalmente objeto de chacota!

E assim refletindo, andou algum tempo sem destino, até que, desanimada, internou-se pelos caniços à procura das outras gansas.

Como previa, a sua chegada provocou risinhos de escárnio.

– Olhem! Vejam só que espantalho!

– Só tem duas penas na cauda!

– Perdão! – atalhou uma das mais velhas, talvez a mãe – está muito bem, é coisa de última moda.

– Perfeitamente – acrescentou outra –; é uma novidade muito linda!

No dia seguinte, logo ao despertar, todas as gansinhas ostentavam só duas penas na cauda.

As boas mães, muito a contragosto, haviam arrancado as penas das suas filhas. E no terceiro dia, quando o sol iluminou o espelho da lagoa, as velhas caudas haviam desaparecido... Toda a raça gansina está na moda!

Aí tendes a história.

Inútil ir além; o nosso assunto é a moda.

“Com que direito – hão de perguntar agora, milhares de senhoras – e por que intervém a Igreja nas coisas da moda?”

Eu vos responderei, meus irmãos: com o direito que lhe dá o quinto mandamento; com a ordem que lhe impõe a Santa Madre Igreja de velar pelo respeito da alma e do corpo.

Constará o nosso estudo de três partes distintas: a vida do corpo, a vida da alma, e as coisas permitidas ou interditas aos que seguem a moda.

A moda e a vida do corpo

Em primeiro lugar cumpre não esquecer de que, embora pareça inverossímil, a moral católica absolutamente não condena nem é intransigente com a moda em todas as circunstâncias; justifica-se até, no que concerne à inteligência do homem.

A Igreja, nos seus ensinamentos, não acha fora de propósito cuidar-se da moda, da indumentária, dos adornos.

O animal, quando se alimenta, não vai além das imposições do instinto; não troca de pele nem de penas, em suma, “não varia de moda”, conservando-se estritamente dentro das leis da natureza.

Ora, o homem é superior à natureza.

Deus, o Criador supremo, concedeu-lhe o dom inefável da inteligência para nortear os seus atos. Ele tem a liberdade de escolher os alimentos, a sua indumentária, modificar o aspecto do seu lar; a capacidade de transformar a matéria inerte imprimindo-lhe os caprichos da arte para a satisfação do espírito, e aqui manifesta a sua superioridade.

É muito natural o esforço do homem nesse sentido.

Entretanto, convém acrescentar, desde que por um exagero inadvertido, a moda se converta numa excitação dos sentidos provocando o desencadear das paixões, segui-la é expor-se então a um perigo iminente. E a Igreja, sempre firme nos seus princípios, vem protestar em nome do quinto mandamento. É este o verdadeiro ponto de vista do Cristianismo que nada exagera, porém levanta a voz, adverte, diante da ameaça de uma derrocada.

É precisamente porque atribui estima ao corpo, que o Cristianismo admite como gravíssima uma falta suscetível de prejudicar a vida humana, a saúde, quer pelo abuso dos prazeres, quer pela escravidão aos caprichos da moda. Absolutamente não veda o uso do álcool, mas condena o excesso, o alcoolismo. Não há pecado no uso moderado do fumo, entretanto, para a juventude é de conseqüências irreparáveis.

Do mesmo modo, não proíbe a Igreja a dança, a conversação, os divertimentos razoáveis; opõe-se às noites atravessadas no prazer e nos desmandos da bebida.

Daí não obstar igualmente ao uso da moda para adornar, embelezar o corpo; protesta, sim, contra os exageros que arruínam a saúde. É de todo indiferente à Igreja que sejamos magros ou gordos, entretanto, vê-se ela obrigada a reprovar certos higienistas de beleza que aconselham, sob o título de cura pelo emagrecimento, uma prática nociva à saúde. Ai do confessor que se lembrasse de dar como penitência a quarta parte dos sacrifícios que se impõem àquelas que desejam assegurar a “linha esbelta”!...

Talvez fosse apedrejado...

Nada é demais para a moda, até o martírio! Sim, o martírio, porque a moda tem os seus mártires...

Ainda temos de memória o frio intensíssimo do inverno passado. Pois bem, enquanto os homens algumas vezes tiritavam dentro dos seus agasalhos de peles, as senhoras, as escravas da moda, afrontando a inclemência da temperatura, ostentavam os seus vestidos curtos e meias transparentes! Não será isto uma desobediência ao quinto mandamento e um desafio à enfermidade ou à morte?

O Bom Deus, compadecido dos animais, dá-lhes uma defesa natural – a veste de pêlo ou de penas.

Em pleno inverno... Geada de rachar as pedras... Prepara-se um luxuoso casamento... Pobres damas de honor nos seus vestidos vaporosos...

Pobres mártires da moda!...

– Por favor, senhor Vigário, mande aquecer a igreja, diz a vovó da jovem desposada.

– Ah! Minha senhora, com este frio não lograremos fazer grande coisa.
Seria bom que as moças se agasalhassem.

– Oh, meu Deus! nada se pode fazer; estão todas vestidas com “toilettes” de seda, muito leves, quase desabrigadas... Por mais que as advirta, nada consigo; vem logo a resposta de sempre: “Ora, vovozinha, a senhora não está a par da moda!”...

E, torturadas pelos vinte graus de frio, lá se vão as pobres meninas, todo violáceas, nos seus vestidinhos de seda leve... E depois, resfriados, bronquites, congestões pulmonares... não faz mal, estavam tão lindas nos seus vestidos de seda, nos seus vestidos à última moda!...

Uma estatística inglesa acusa na coluna dos falecimentos de mulheres entre 18 e 27 anos, uma porcentagem elevadíssima.

Alarmados, os médicos procuraram indagar da causa dessa mortalidade assustadora, e chegaram à conclusão seguinte: a primeira deve ser encontrada na insuficiência das vestes. Assim temos a palavra autorizada dos médicos; a causa reside nesta moda que obriga as senhoras a usar vestidos decotados e meias transparentes durante o inverno.

A segunda, reporta-se ao hábito de fumar, o abuso dos cigarros, a causa de moléstias das vias respiratórias e do coração.

Não há muito, afirmava-nos um médico americano, que 60% dos filhos de mulheres que fumam, vêm a morrer antes de completar dois anos de idade. Será possível permanecer indiferente diante de tais fatos?

Eis aí, meus irmãos, até onde se estende a vigilância do quinto mandamento.

Eis aí porque a Santa Igreja com o único intuito de defender e proteger a vida humana, levanta-se contra as extravagâncias da moda.

E, se assim proceder em relação à vida mortal, que diremos quando se trate do seu futuro na eternidade?

A moda e a vida das almas

No decurso do ano transato, redigiram os nossos bispos várias pastorais com o fim de denunciar os perigos da moda em face da alma.

Pessoas há, não obstante a visão tão concreta das coisas, que perguntam a causa da interferência da Igreja nos domínios da moda. De que lhe importa isso?

De que lhe importa?

É natural. Enquanto a moda se restringiu às questões de elegância, a Igreja teve por bem conservar-se calada. Porém, diante da ameaça à integridade, à salvação das almas, cumpre-lhe reagir.

Na Holanda, houve em certas repartições, um movimento de reação contra a desenvoltura da indumentária feminina.

Dizia-se causar ela perturbações no serviço das estações dos caminhos de ferro. E, enquanto a Igreja, por seu lado, antevia nos exageros da moda um perigo para os homens, a direção das estradas de ferro do país, no interesse do bom desempenho do seu serviço, fixava para as suas funcionárias as linhas de um uniforme: blusa fechada até o pescoço e mangas inteiras, porque as vestes muito curtas do pessoal feminino perturbavam o trabalho dos homens.

E, se as companhias de estradas de ferro adotam semelhantes disposições, com o fito de regularizar o seu trabalho, razão há de sobejo para que se não exprobre à Igreja o fato de desenvolver toda a energia para compelir ao respeito pelas almas dos seus fiéis. Não nos cause admiração, portanto, a severidade das suas medidas. Onde quer que apareça uma ameaça, entra imediatamente com a sua vigilância, não transigindo nem pactuando com as soberanias fúteis, apesar dos milhares de indivíduos que lhes obedecem. E assim procede em relação à moda.

Como é sabido, a Igreja não condena a força criadora do homem, a atividade dos sentidos, dons, aliás, de Deus Nosso Senhor; mas, atribui de pecado os abusos, profliga o exercício imoderado dos sentidos, a excitação sensual. A força criadora, o poder sexual – como veremos mais adiante – é preciosa desde que se restrinja aos justos limites, às regras da disciplina normal.

Se retirarmos de um tonel os arcos que o mantém, o melhor vinho entornar-se-á. Retiremos à vida do sexo os círculos dos decretos divinos, cairá a dignidade humana nos charcos pútridos da miséria moral.

Ora, a nova moda de vestir-se tende a romper os baluartes do pudor, e constitui-se então um dever para a Santa Igreja levantar a voz e combatê-la.

As relações entre o homem e a sua indumentária são bem mais sérias do que se afigura. O vestuário é parte integrante do ser, é a revelação eloqüente da sua personalidade.

Independentemente da vontade, traz incidentes que o indivíduo desejaria guardar sob silêncio.

Para este, deixa à mostra a sua mediocridade intelectual, o servilismo, a vaidade; para aquele, ao contrário, evidencia a delicadeza, o cuidado, a reserva.

O ambiente percebe com nitidez a linguagem das vestes.

Para uns elas são o anjo da guarda; para outros a perda da própria alma.

Qual o fim das roupagens que nos envolvem?

Defender-nos, proteger-nos o corpo e a alma... a dos outros e a minha.

As vestes abrigam-nos contra o calor, a chuva, o vento e os raios do sol; abrigam-nos igualmente dos olhares indiscretos dos nossos semelhantes.

Já não estamos vestidos quando arrastamos alguém ao pecado, quando desempenhamos a obra do demônio. Trazemos velado o corpo visto que, para nós, represente o templo do Espírito Santo, e não toleramos que a pureza imaculada desse altar sagrado sofra o atentado de um só olhar ardente, um só olhar de concupiscência.

E a Igreja, neste ponto, tem-se por judiciosa e prudente quando se pronuncia sobre a moda, tendo em vista a tríplice distinção do assunto.

1°) Quando a novidade da moda se apresenta, além de artística, dentro dos princípios da moral, convindo portanto às criaturas de Deus, aí nada a objetar.

2°) Quando a moda, apesar de não atentatória, é ridícula e absurda, tal como a história das duas penas das gansas atrás comentada, e nesse caso vêm à lembrança os chapéus extravagantes e os vestidos tão estreitos que impedem a marcha...

Usam atualmente as senhoras um corte de cabelo parecido com o que se praticava há tempos, para as mulheres condenadas à prisão...

Pouco importa, a Igreja nada diz a respeito; é coisa secundária.

Todavia, esta questão muda de aspecto desde que requeira longas horas à frente do espelho em detrimento do governo do lar; ou provoque desequilíbrios orçamentários ao marido, transtornando assim a paz doméstica; ou então quando venha comprometer a integridade da sua protagonista que nada mais toma a sério.

E, a propósito, relatava uma doméstica o seguinte fato:

– Eu tinha uma companheira ao lado de quem trabalhara durante um ano. A minha amiga só falava em “toilettes”, adornos, divertimentos. Precários eram os seus recursos e freqüentemente jejuava. Isso, porém, não lhe causava aborrecimento, pois vivia só para a sua vaidade. Como era de esperar, os jejuns terminaram numa tuberculose de caráter galopante. Ao saber que poucas horas lhe restavam de vida, fui visitá-la. Procurando tornar-me útil, indaguei se já havia tomado qualquer medida com relação à eternidade. Sorriu e disse-me que não me preocupasse a esse respeito. Uma coisa somente a inquietava e pediu o meu auxílio. Prontifiquei-me imediatamente. Disse-me então: “Eu desejaria ficar uma linda morta no meu caixão. Se quiseres prestar-me esse serviço, abre aquela caixa – e apontou-a; acharás ali um ferro de encrespar cabelo e uma lâmpada de álcool; toma-os e encrespa-me os cabelos”.

Derradeira e única vontade de uma criatura que agoniza: ter os cabelos ondulados! Ah! quanta verdade no provérbio: “Uma mulher pintada e um livro bem encadernado raras vezes são coisas rara!”...

Também isto é uma moda, porém inofensiva.

3°) Em terceiro e último lugar, vem a pior das modas, porque tanto tem de desarrazoada quanto de imoral à vista dos seus males. E é contra ela que eu desejo prevenir-vos hoje; moda que avilta a dignidade da mulher, excitando os instintos inferiores.

Deparam-se-nos, às vezes, senhoras que não se podem sentar nem ajoelhar sem ferir os princípios da decência.

Em hipótese alguma, o inventor dessas modas teria sido inspirado por um pensamento estético vindo de Deus. O seu intuito foi, naturalmente, provocar os sentidos.

Porque, usar vestidos transparentes e curtos, trazer os braços e ombros nus, nada tem que ver com a estética.

Evidentemente, tal moda é imoral. Escandalosa, tornando-se para as almas um foco de pecado.

E seria oportuno lembrar aqui as palavras do Salvador: “Pois é forçoso que venham escândalos; mas ai daquele homem por quem o escândalo vem” (Mat. XVII, 7).

Diante de semelhantes abusos, deve a Igreja calar-se? Ser-lhe-á possível contemplar com indiferença a linguagem de certos periódicos ilustrados, relativamente a essas donzelas que são expostas aos olhares suspeitos dos membros de um júri, para obter o primeiro prêmio nos concursos de beleza, exatamente como se processa para as raças de suínos de Yorschire, ou para as galinhas Orpington?

Para formar um juízo exato, cumpre estabelecer distinções, aliás, necessárias.

No terreno da moda que nos escandaliza, fixamos dois grupos: no primeiro, as mulheres que acompanham a moda sem noção do perigo a que se expõem; no segundo, as que, infelizmente, com pleno conhecimento de causa, não recuam ante os estragos decorrentes dos seus atos.

As do primeiro grupo, se por acaso são chamadas à responsabilidade em face do quinto mandamento, mostram-se admiradas, aparentando não compreender; nunca pensaram, nunca refletiram.

Não têm a intenção de fazer o mal; impeliu-as o receio de parecer antiquadas.

Se lhes dissessem que a moda é trazer um espanador ou cascas de batata no chapéu, fá-lo-iam para estar em dia com os últimos modelos.

No segundo grupo, estão aquelas que buscam pretextos, justificativas para os seus desmandos; resta saber se Deus, o Autor supremo do quinto mandamento, aceitaria as suas razões.

Em resumo, meus amados irmãos, não é possível calar a situação dos nossos dias. Urge desenvolver uma vigilância, uma atuação, cuja eficiência venha prevenir e precaver muitas senhoras, aliás, bem intencionadas, a fim de não adotarem aquilo que a sua atitude tolerante parece aprovar.

E aqui vamos ferir ao vivo o nosso palpitante assunto.

A moda lícita ou ilícita

Continuando a nossa conferência sobre a moda, seria oportuno recordar uma das grandes cenas da Bíblia.

Quando Caim acabava de derramar o sangue do seu irmão, ouviu a voz terrível do Senhor: – Que fizeste, Caim?

Ao pé da Cruz ensangüentada do Salvador, também nós ouvimos muitas vezes as mesmas palavras: – Que fizeste!... Tu também derramaste o sangue de um inocente!...

E este pensamento deveria comover-nos até as mais recônditas fibras do coração... Um Deus derramou por mim o seu sangue, até a última gota...

Sacrificou-se por mim... por nós!...

E com que direito ousarei enxovalhar, expor à danação eterna, com os meus desatinos, uma alma remida com o sangue de Jesus Cristo? Com que audácia, com meus abusos, palavras e atos irrefletidos, atitudes escandalosas, terei a coragem de apagar da minha vida, da minha alma, a imagem divina do Filho de Deus?

Eis, meus irmãos, a reposta à pergunta: “De que maneira acompanhar a moda?”.

Podemos acompanhá-la, desde que não venha ferir os interesses do corpo e da alma. Os divertimentos e a vida na sociedade, não impedem nem complicam a observância da moral nos domínios da moda. A honestidade absolutamente se opõe ao que não venha atacar os seus princípios fundamentais.

A moda, em primeiro lugar, deve render homenagem ao próprio indivíduo, respeitar, se assim se pode dizer, a personalidade daquele que a veste. Os recreios, as reuniões sociais, a moda, são lícitas ou ilícitas conforme sejam inocentes ou pecaminosas. Não é lícito freqüentar divertimentos ou adotar uma moda indiferentes ou alheios ao fim a que se destina o homem, portanto à condição honrada de sua alma.

Deveis, por acaso de ir ao baile, dançar, ter presente o ponto essencial: não resvalar, não humilhar a vossa personalidade. Convencei-vos de que essas diversões podem constituir um grave perigo se não fordes atento.

São Francisco de Sales, em seu livro “Introdução à vida devota”, compara a dança aos cogumelos e diz:

“Falo-vos da dança da mesma forma que os médicos se referem aos cogumelos: os melhores não prestam”; e eu acrescentarei: os melhores bailes não são lá grande coisa.

Entretanto, se tiverdes de comer cogumelos, vigiai para que sejam bem preparados.

Deveis ir ao bale, vigiai também para que a vossa dança seja bem orientada.

Mas como? – Pela dignidade e boa intenção.

“Comeu pouco e raras vezes, dizem os médicos, referindo-se aos cogumelos. Dançai pouco e raras vezes, Filotéia, pois contrariamente exponde-vos à paixão” (Introd. à vida devota, Liv. III, Ch 38).

Assim adverte São Francisco de Sales.

Pensais que podeis dançar continuamente, e tendes resistência bastante para não cair? É louca a vossa pretensão. Imaginais desmentir as palavras da Sagrada Escritura: “Acaso pode o homem esconder o fogo no seu seio, sem que ardam os seus vestidos?” (Prov. VI, 27, 28). “Como da presença de uma serpente, foge dos pecados; pois se deles te aproximas, serás por eles apanhado. Eles são como os dentes do leão e matam as almas dos homens” (Eccli. XXI, 2-3).

Cumpre igualmente vigiar pelas nossas relações a fim de que não se convertam numa ameaça para nós.

Muito tem progredido o nosso século em matéria de higiene, procedendo-se ao saneamento do país contra os micróbios; entretanto, nenhuma medida de saneamento contra os bacilos da imoralidade, das infecções espirituais, isto é, um saneamento moral, foi posto em prática.

À porta de um hospital de doentes, atacados de tifo, lê-se: “É proibida a entrada!”.

Tantas são as precauções observadas na vizinhança de um tuberculoso que está sempre a tossir; não se tem a mínima prudência vivendo em contato com um ente saturado de imoralidade e desprezo de Deus. E, no entanto, é mil vezes mais perigosa do que um acesso de febre a infecção de uma língua envenenada.

Evidentemente, não se trata aqui de fugir ao contágio da moléstia física, mas da onda pestilenta que atinge toda a ambiência de uma alma corrompida.

Repetindo: “É lícito acompanhar a moda até o ponto onde não venha afetar a alma”. Confirma-o Santo Tomás de Aquino, o grande Doutor da Igreja, quando diz ser permitido adornar-se às mulheres com o fito único de agradar aos seus maridos (11 a 11 ae, quest. 169-2).

Acrescenta São Paulo: “Do mesmo modo, as mulheres em traje honesto, ataviando-se com modéstia” (1 Tim. II, 9).

No paganismo, era Vênus a soberana da moda; no cristianismo, deve ser a rainha da moda a Santíssima Virgem, a Imaculada Conceição, cuja pureza ideal é o exemplo mais delicado, modesto e perfeito da mulher cristã.

Ah, pudessem compreendê-lo essas criaturas que se deixam imbuir pelas extravagâncias da moda, apesar de viverem isentas de faltas, essas mulheres profundamente honestas.

“Queiram perdoar-nos e não nos atribuir leviandade; Deus nos defenda. Somos obrigadas a vestir-nos assim. É para nós indiferente e desejaríamos até usar uma indumentária mais simples; mas, ante a sociedade passaríamos a ser coisa arcaica e motivo de escárnio. Podeis crer na sinceridade de nossas palavras”.

Acredito deveras nas desculpas dessas senhoras que agem ao contrário dos seus sentimentos, não devendo elas moralmente ser julgadas pela “toilette”.

Todavia, é inegável também que se tornam objeto de escândalo, e como tal, ser-me-á lícito transmitir-lhes as palavras que um grande pontífice pagão dirigiu à uma vestal acusada de imoralidade, e que conseguira justificar-se: “Se tiveres sido irrepreensível no nosso vestuário e nas vossas atitudes, os homens ter-vos-iam respeitado. Não deve a mulher ultrapassar os limites da decência se quiser guardar alguma coisa da sua autoridade e reputação” (Tito-Lívio, Hist. Rom. IV, 84).

Vejamos ainda mais uma palavra do assunto.

Essa dança muito livre, num ambiente frívolo, esse vestuário vaporoso não vos perturba, segundo dizeis, porque sois bastante fortes.

Tenho a máxima boa vontade em acreditar-vos; mas podeis garantir que a vossa atitude não prejudica aos outros, àqueles que vos cercam?

Se sois, de fato, cristãos, é oportuno lembrar-vos as judiciosas advertências de São Paulo.

Convencido estava da inexistência das divindades pagãs, não havendo portanto inconveniente em comer ou não a carne dos sacrifícios dos seus altares; no entanto, aconselha a abstinência dela aos neo-batizados que o não observam, dando assim a prova de que coloca acima de tudo a salvação dos irmãos: “Pelo que, se a comida serve de escândalo a meu irmão, jamais comerei carne, para não escandalizar meu irmão” (1 Cor. VIII, 13).

Eis o que podemos denominar prudência cristã.

Aqueles que para escusar o seu vestuário insuficiente, entrincheiram-se atrás das leis tirânicas da moda, repetirei as palavras do Senhor: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo, que todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já adulterou com ela no seu coração” (Mat. V, 27, 28).

Deus, que tudo vê, é o único capaz de avaliar quantos pecados de pensamentos e maus desejos pode ter provocado uma mulher vaidosa e ligeiramente vestida, extensivo isto até às que por preço nenhum consentiriam em fazê-lo voluntariamente com as suas atitudes.

Coloma, eminente escritor espanhol, refere com admirável maestria essa verdade, e para terminar o nosso entendimento deixarei aqui a emocionante história por ele intitulada “O primeiro baile”.

Trata-se de uma graciosa e inocente mocinha coagida pela mãe a apresentar-se num baile em traje de rigor, isto é, vestido excessivamente decotado.

A menina resfriou-se, sendo atacada de febre e delírio. Nesse estado era atormentada por pesadelos terríveis.

“Era ela inocente e tomava parte num baile. Pela primeira vez observou os olhares indiscretos do seu cavalheiro, a sua ardência que se acentuava demasiada no turbilhão da dança. De repente, já não estavam na sala, mas sim rodopiando no cimo da montanha sobre um chão molhado. Entre duas oliveiras depara-se-lhe um homem num mar de angústias e suando sangue. Sua mão levantada aponta o coração... Os olhos do dançarino despedem chamas e a jovem, aterrada, percebe que ambos dançam no sangue desse homem que sofre. Sob o império da febre, exclama: Mãe... Mãe... Eu não pequei... E no entanto sou a causa de que dançamos, calcando aos pés o sangue de Jesus”.

Em quantos salões de baile poderíamos pregar este letreiro: “Aqui se calca aos pés o sangue do Cristo”.

A quantas senhoras vestidas na moda, a quantas palestras, flirts, cinemas, teatros, mundanidades fúteis poder-se-á dizer: “Aqui se calca aos pés o sangue do Cristo!”.

Meus amados irmãos, o sangue do cristão é o sangue de Cristo. O corpo do cristão é o corpo de Cristo!

Ó Jesus Cristo, vós que tanto padecestes por nós, iluminai-nos, para que por nossos vestidos, atitudes, provocações, palavras, jamais calquemos aos pés o vosso sangue, o sangue preciosíssimo que derramastes por nós.

Amém.


* * *

Fonte: Dom Tihamér Tóth, Os Dez Mandamentos, Volume 2, Editora SCJ, 1945.