Os que Maria não ajuda

Não que dela pretendam descuidar-se inteiramente: na verdade, às vezes dirigem alguma à Mãe do céu; mas, “para que insistir tanto?”, pensam eles; “pois Maria não vê as nossas necessidades? Não podemos rezar constantemente: Ela saberá compadecer-se de nós e da mesma forma nos ajudará, pois confiamos nEla”.


Por Padre David Ardito

Depois de termos afirmado mil vezes que a Virgem Santíssima a ninguém deixa de atender, depois de proclamar-Lhe a bondade e o poder, talvez alguém estranhe ser esta leitura consagrada a passar em revista: os que Ela não protege nem auxilia.

Não há, porém, o que estranhar, pois a confiança que elogiamos e recomendamos não é uma confiança qualquer e desarrazoada. Há uma confiança que em vez de honrar, ofende à Virgem: também vós vos sentiríeis ofendido, insultado, se um vilão contasse convosco para ajudá-lo a realizar um projeto criminoso. Mas para obter de Maria os mais altos favores do céu, será bastante depositarmos nEla uma confiança que se limite a não A desgostar, ou deverá esta confiança satisfazer outras condições importantes? Haverá, porventura, quem, apesar de confiar nEla, nada obtenha da Mãe do céu?

Sim, e não são poucos, e são todos os que ficam inertes, hesitantes, mudos em sua fé.

Os inertes

É voz do povo que “para o céu não se vai de carrinho”. Esta locução familiar não passa de eco fiel da sentença mais explícita proferida por Jesus: é estreito o caminho que leva à vida. No entanto, será crível? Há uns tantos que parecem pensar exatamente o contrário e dão a crer que encontraram o bem-aventurado carrinho no qual, sem cansaço nenhum, chegarão lá em cima. Esse automóvel privilegiado seria a confiança em Maria. Não que se suponham autorizados pela confiança na Virgem Santíssima a viver no pecado: não, pelo contrário, detestam-no e dele fogem, sobretudo do pecado mortal; mas, tirando isso, contam que Maria fará todo o resto. Do sério aviso do Espírito Santo: “afasta-te do mal e faze o bem”, cumprem de certo modo a primeira parte e facilmente deixam a Maria a tarefa de cumprir neles a segunda, fazendo-os progredir no bem. Reconhecem que haveria virtudes por adquirir, defeitos por vencer, reformas por fazer na sua vida exterior, no modo de cumprir os deveres mais importantes: mas, para que preocupar-se tanto com isso? Põem a confiança em Maria e lá do céu Ela há de arranjar tudo. E o mais admirável é ver como não raro se queixam de não serem bastante ajudados pela Virgem e amargamente lamentam fazerem tão escassos progressos na virtude.

Não julgueis que sejam poucas essas almas: “Eis o que geralmente acontece, escreve uma autoridade no assunto, o Pe. Tiago Michel, S.J. [1]: uma alma deve lutar para combater seus defeitos, suas más inclinações; pede a Deus que a livre dessa luta e, portanto, o Senhor deve fazer tudo e ela pode ficar descansada. Pretende o milagre operado por Deus em S. Paulo. Ouvi-la-eis dizer: ‘se meus defeitos desagradam a Deus, por que não me livra deles? Pois isto não está nas mãos dEle? Por que não endireita as más inclinações do meu coração? Quantos outros transformou!’. E enquanto espera pelo milagre, nada faz para seguir a ordem divina, para tornar-se melhor. É fácil compreender que semelhante disposição não é de molde a atrair as bênçãos e o auxílio de Deus. Quem quer servir o Senhor sem combate e sem violência contra si mesmo, está contraditando a palavra de Jesus”.

Querida alma, acaso estarás reconhecendo teu retrato nestas palavras? Terás também no passado pretendido obter da Virgem Santíssima o milagre de teu adiantamento espiritual sem esforço teu, sem violência contra ti mesmo para te adiantares no bem? Se assim foi, terias de incluir-te no número dos que chamamos inertes, e não seria mais um mistério a teus olhos o pouco fruto colhido. Doravante, desempenha a tua parte, trabalha, sofre, combate e depois confia em Maria. Certamente Ela te ajudará.

Os hesitantes

Consideremos agora a segunda classe dos que a Virgem não ajuda. São os que hesitam e os que duvidam.

Confiam na Mãe do céu, pois não, mas de que modo e com que fervor no coração? Não lhes é na verdade a confiança bastante viva, bastante forte para triunfar completamente de todos os obstáculos e dominar todas as insídias do inimigo das almas, o demônio. Este odeia a confiança cristã das almas que, desconfiando totalmente de si, se entregam a Deus e à Mãe do céu, e assim se tornam invencíveis, fortes da própria força de Deus. Bem conhecendo o demônio o poder e a bondade de Maria, sabendo quanto Lhe agrada o apelo de uma alma que a Ela se entrega inteiramente, emprega todos os meios de suscitar nessa alma dúvidas, desconfianças, receios, a fim de impedi-la de recorrer a Maria com toda a confiança. Não conseguirá resultado tão grande quanto deseja? Procurará pelo menos lhe esfriar a confiança, fazê-la duvidar, hesitar, como se tivesse razões para temer que inúteis ou pouco menos lhe sejam as súplicas e as fagueiras esperanças. Admira, pois, que tão débil confiança não mereça ser por Maria recompensada com pronto e solícito auxílio?

Tratemos, portanto, de reagir contra as dúvidas, as hesitações, os receios que em nós há de suscitar o demônio, e em todas as ocasiões lembremo-nos de que Maria é boa e poderosa e de mais a mais quer e pode socorrer-nos. De certo modo, a confiança obriga a Virgem a nos abençoar e Ela não é capaz de resistir a uma oração animada por viva e grande fé.

Ser mais ou menos rapidamente socorrido dependerá da maior ou menor intensidade da confiança com que nos lançarmos a seus pés ou, ainda melhor, nos seus braços maternais.

Por isto, assim resumiremos o que foi dito: mais favores de Maria recebe quem nEla mais vivamente confia.

Os mudos

Falta considerarmos a última classe dos devotos que raramente em si mesmos experimentam os dulcíssimos efeitos da confiança em Maria. São os mudos para o suplicante apelo da oração.

Não que dela pretendam descuidar-se inteiramente: na verdade, às vezes dirigem alguma à Mãe do céu; mas, “para que insistir tanto?”, pensam eles; “pois Maria não vê as nossas necessidades? Não podemos rezar constantemente: Ela saberá compadecer-se de nós e da mesma forma nos ajudará, pois confiamos nEla”.

A essas almas, que parecem ter esquecido o Evangelho e as vivíssimas exortações à oração que ele contém, dizei que os santos obtinham muito porque muito oravam; dizei que a oração é a chave dos tesouros celestes, o segredo infalível e necessário para obter favores e graças: ouvir-vos-ão encolhendo os ombros e talvez respondam que não são santos nem lhes sobre tempo para empregá-lo assim. Rezar o terço todos os dias? Fazer uma novena de orações, de comunhões, de práticas espirituais? É demais para eles. Visitar uma igreja e aos sábados impor-se uma mortificação, um pequeno sacrifício em honra a Maria? Mas se soubésseis em que condições se acham! Não são freiras ou frades, não vivem num convento, para regular assim a vida. E desejaríamos perguntar-lhes então: em que fazeis consistir a vossa devoção, a vossa confiança em Maria? Talvez simplesmente no desejo que tendes de ser socorridos e protegidos por Ela? Onde está, pois, o fervor da oração, a viva expressão de vossos sentimentos de confiança, de amor, de fé na grandeza e na bondade da Virgem? Onde aquele ardor na invocação, a perseverança nas súplicas e nas orações a que Deus e a Mãe do céu exclusivamente reservam as mais assinaladas graças e os milagres? Não procederam assim os que os obtiveram e os que ainda os obtêm? Não procede assim o pobre mendigo que encontrais na rua e ao qual dais uma esmola? Se, contentando-se com o muito desejar intimamente ser socorrido, não implorasse a compaixão dos transeuntes, quantas vezes à noite regressaria ao tugúrio sem um ceitil!

Vós, portanto, que desejais de Maria receber grandes mercês, não vos limiteis, por amor de Deus, a confiar no seu Coração: fazei alguns pequenos sacrifícios, rezai com fervor e Ela vos atenderá.


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[1] O Desânimo na Trilha da Piedade, C. XIII.

Fonte: Padre David Ardito, Ó Maria, Confio em Vós, Edições Paulinas, São Paulo, 1946.