O próprio Deus ensina-nos a confiar em Maria

Talvez vos assalte o receio de, por vossos pecados, incorrer na eterna condenação? Não temais! Tendes Maria que, semelhante a Ester, cingida a fronte com o régio diadema, defenderá vossa causa junto de Jesus, seu Filho e vosso Rei, revogando em vosso favor o decreto já lavrado.


Por Padre David Ardito

Talvez alguém estranhe esta afirmação, mas a voz que nos manda confiar em Maria é a própria voz de Deus.

Não se contenta o Pai amantíssimo de falar aos homens com a misteriosa palavra íntima que ilumina, enternece e comove, penetrando até as mais recônditas fibras do coração: dirigiu à humanidade a mensagem universal e solene que o livro sagrado conserva.

Falou diretamente a Adão no Éden e falou aos profetas diante de cuja mente rasgava os véus misteriosos do porvir. Outra linguagem também empregou e ainda emprega: a dos acontecimentos, não menos eloquente e solene que a primeira. Quantos fatos se deram na história do povo hebreu que, na intenção divina, se destinavam a representar em figura e como sombra o que depois viria a ser a realidade!

Ora, se examinarmos esta tríplice palavra de Deus, veremos com inefável consolação que contém um ensinamento e um convite eloquentíssimo para confiarmos em Maria.

Estudando rapidamente a solene promessa do Éden, as principais profecias relativas à Virgem, as figuras e os símbolos que A representam, convencer-nos-emos desta dulcíssima verdade.

Evoquemos a dolorosa e terrivelmente dramática cena que se desenrolou no Éden e assinalou a queda do homem. Eis os nossos antepassados, curvados e trêmulos sob o peso da maldição de Deus, a escutar a condenação sua e de todos os seus descendentes. Às esplêndidas auroras de um céu sempre límpido e puro, às castas alegrias da inocência, alegradas pelo sorriso de Deus, sucedeu uma apavorante cena de desgraça e desordem. Um só pecado bastou para destruir todo o plano divino de ventura e grandeza, para se mudar uma preciosa herança de graça, de inocência e de alegria noutra de crimes, de desventuras e de lágrimas.

Hora verdadeiramente funesta para a pobre humanidade foi aquela; mas, não temais, vai já tornar-se a hora da mais consoladora esperança. Escutai a voz de Deus que, após amaldiçoar a serpente, causa precípua do mal, acrescenta: “E porei inimizade entre ti e a mulher, entre tua descendência e a descendência dela; e ela te esmagará a cabeça” [1].

Mas quem é esta mulher excelsa cuja figura se esboça ao longe como prenúncio de paz e à qual, por vontade de Deus, confiantes se voltam os olhos de toda a humanidade? Ah! bem a conheceis: é Maria, Mãe do bendito Jesus. Quando tudo parece perdido, quando no horizonte se adensam e carregam as trevas da ira e da justiça de Deus, eis que a esperança renasce consoladora nos corações e Deus mesmo acende essa luz quando solenemente promete dar-nos Maria. Com que alegria e gratidão devem nossos pais ter escutado a promessa e o anúncio! Como devem tê-la abençoado, guardando-a ciosamente no coração para transmiti-la aos filhos, com eles condenados às terríveis consequências do pecado!

Erguei pois os olhos, abri o coração à confiança e ao júbilo, ó nossos infelizes pais! Não vedes ao longe Maria resplandecer? Pela santa vontade de Deus, Ela será a vossa esperança e a nossa; Ela anunciará a ditosa era da redenção e da vida.

Entretanto, pergunto a mim mesmo: que quis Deus significar com esta solene promessa? Não vos parece que, apontando para Maria, desde o alvorecer dos tempos, tenha Ele querido dizer aos homens: Eis Aquela em cujas mãos ponho a vossa salvação; eis o arco-íris da paz, a esperança de vossos corações; saldai-A, confiai-vos a Ela?

As palavras dos profetas

Passemos agora a examinar as místicas visões dos profetas. Quem não conhece pelo menos algumas das palavras proféticas de Isaías, o profeta mariano por excelência? Enquanto o paganismo reina por toda parte e as espessas trevas da corrupção e do erro envolvem a mísera humanidade, em meio ao povo de Israel se lhe ouve a cada instante ressoar a voz cheia de esperança e de amor a anunciar a vinda de uma virgem, precursora de perdão e de paz. “Eis que uma Virgem dará à luz um filho e o nome dEle será Emanuel” [2]. Quais serão os efeitos consoladores e admiráveis de seu aparecimento entre nós? “Alegrar-se-á a região deserta e estéril, rejubilará a solidão e florescerá como o lírio. Cobrir-se-á de flores e exultará cheia de contentamento e cantará louvores” [3]. E, referindo-se a Jesus, o esperado das nações e futuro redentor, que instaurará o reino da paz, não esquece a Mãe dEle, renovo da mística raiz de Jessé, à qual deverão os homens a divina e maravilhosa flor do paraíso [4].

Nas palavras do vidente de Judá, não só a divina promessa do Éden se vê confirmada, como adquire maior solenidade e difunde mais vívida luz de esperança e de vera consolação. Mais ardentes se erguem as aspirações dos homens para essa Virgem, apressa-Lhe a vinda o anelo dos corações, Lhe saúdam a figura, Lhe bendizem a promessa as almas sedentas de luz, de perdão e de amor: Ela se torna a razão mais poderosa de esperança, a fonte mais doce de sua fé.

Deus nunca se retrata e, tendo querido que desde o paraíso Maria fosse a esperança de nossa alma, do alto ilumina o profeta para que bem Lhe conheça a glória, a beleza, a santidade; inspira-o para que manifeste aos homens a sublime missão consoladora, a fim de melhor e mais eficazmente os convidar a porem nEla a mais segura e terna confiança.

As figuras e os símbolos

Mas isto ainda não basta. Em toda a história do povo hebreu surgem a flux figuras e símbolos que retraçam a bondade e o poder de Maria, bases inabaláveis de nossa confiança nEla. Oh! como nos enche de suave consolação a lembrança das gloriosas heroínas que Deus suscitou no seu povo, a fim de figurarem por algum modo o que mais tarde a Virgem viria a ser. Figuras e símbolos certamente contêm outro eloquentíssimo convite a pormos em Maria toda a nossa confiança.

Quereis conhecer-Lhe a grandeza e a santidade? Vede-A representada por Sara, mãe de Isaac. Este filho, ela o teve por graça especial de Deus, como a Virgem se tornou Mãe de Jesus por obra do Espírito Santo. Isaac subiu o monte do sacrifício, pronto a ser imolado, e Deus o elegeu pai de gloriosa e incontável descendência. Jesus subiu o monte Calvário e Deus o fez pai de todos os redimidos, resgatados por seu sangue e por sua morte.

Sois constantemente assaltados por Satanás, vosso desapiedado inimigo? Confiai em Maria. Nossa Judite, vencedora do cruel Holofernes, mil e mil vezes Ela o desbaratará convosco e para vós.

Talvez vos assalte o receio de, por vossos pecados, incorrer na eterna condenação? Não temais! Tendes Maria que, semelhante a Ester, cingida a fronte com o régio diadema, defenderá vossa causa junto de Jesus, seu Filho e vosso Rei, revogando em vosso favor o decreto já lavrado.

Ah! entendo: o que mais vos apavora é pensar na tibieza e na aridez de espírito em que vos achais há muito tempo. Mas, dizei-me, por que não fitais aquela branca nuvenzinha do Carmelo que pode fazer baixar sobre vós uma chuva fecunda de fervorosos propósitos e de obras santas?

E vós, almas de pouca fé que andais à procura de refúgio seguro contra a funesta maré de corrupção e de vícios que hoje invade a sociedade, se deveras vos quereis conservar firmes e ascender às serenas regiões do céu, por que não recorreis confiantes a Maria, arca santa flutuante nas águas do universal dilúvio e escada misteriosa pela qual sobem as almas e pela qual desce Jesus?

A confiança em Maria

Era um jovem sacerdote francês que, capturado o navio pelos corsários, caíra nas mãos de um dono cruel. Na pátria, ninguém tivera mais notícias dele.

Oh! como em tropel o assaltavam doces recordações, a saudade da pátria longínqua, a nostalgia do céu e de seu divino mistério! Não mais o altar cintilante de velas e perfumado de flores, no qual Jesus crucificado e a Virgem lhe sorriam quando em sobre-humano êxtase do coração celebrava o sacrifício da missa; não mais as igrejas repletas de povo a ouvi-lo anunciar a palavra de Deus; não mais almas ajoelhadas a seus pés a fim de receberem na fronte inclinada o divino perdão. Em vez de tudo isso, a escravidão, a idolatria, a barbárie mais atroz e desolada em torno de si.

Mas rezava e confiava em Maria, cantando com a voz cheia de soluço o apaixonado canto dos exilados: a Salve Rainha. Um dia, foi ouvido pela esposa do impiedoso senhor; os acentos da triste e confiante oração comoveram-na e ela obteve que o marido libertasse o escravo.

Voltou ele feliz à pátria onde tanto bem havia de fazer e sempre foi grato à sua libertadora, Maria.

Quereis saber-lhe o nome? Inclinai-vos reverentes: é Vicente de Paulo, o grande amigo dos pobres e dos aflitos, o Apóstolo da caridade.


* * *

[1] Gênesis III, 15
[2] Isaías XXV, 1-2
[3] Isaías XXXV, 1-2
[4] Isaías XI, 1-2

Fonte: Padre David Ardito, Ó Maria, Confio em Vós, Edições Paulinas, São Paulo, 1946.