O mais doce dos abandonos

Mãe amantíssima de nossas almas, iluminada para conhecer os males que nos afligem, dotada por graça da própria onipotência de Deus, não só Maria nos quer socorrer, como também este é seu mais ardente desejo e a mais suave alegria para seu Coração.


Por Padre David Ardito

A primeira e indispensável condição para que confiantemente nos possamos abandonar a um coração, é que este nos conheça e que compreenda as nossas dores. Se para ele fôssemos estranhos, se devêssemos sofrer ignorados e ocultos e nunca chegassem junto dele nossas angústias secretas, nossas inquietações e nossas lágrimas, como poderíamos eficazmente esperar consolo e alívio?

Ora, em Maria encontramos perfeitamente realizada esta condição indispensável. Pertencente por natureza aos degredados filhos de Eva, Ela conhece o pranto e a dor em todas as suas múltiplas variedades. O sofrimento foi-lhe sempre companheiro da vida; a pobreza, o abandono, o exílio, a viuvez, a dor suprema para um coração de mãe, isto é, a de ver assassinar cruelmente um filho amantíssimo, arrancaram-lhe do Coração profundos suspiros e dos olhos lhe fizeram correr lágrimas ardentes.

A Ela podemos, portanto, recorrer com fé, pois não está acima nem longe de nós a ponto de não compreender as angústias que em certos momentos nos enchem o coração, esmagado sob o peso da tristeza e das desgraças. Pelo contrário, essas angústias, todas as nossas necessidades, Ela as conhece intimamente. O mesmo Deus que as manifesta a nosso Anjo da Guarda e talvez a nossos santos padroeiros, a fim de nos poderem guardar e defender, acaso os há de ocultar a Maria a cujos amorosos cuidados maternos tão solenemente nos confiou? Não, não é possível. Ela fixa o olhar na luz indefectível de Deus e, iluminada por essa luz, penetra em nossos corações, conta as nossas dores, vê as nossas necessidades, cura nossas amarguras e nossas chagas; toda a nossa alma, toda a nossa vida é um livro aberto a seus olhos.

Ó coração, que gemes sob o peso da cruz, recobra o ânimo e espera: Maria tudo vê e tudo conhece. Ó pobre alma envolta nas trevas da dúvida e da aridez; ó tu, que continuamente sentes erguer-se contra ti o vendaval das paixões e os assaltos do inimigo infernal; ó pobre coração que sofres porque te vês frequentemente olvidado e não te vem alegrar aquela afeição de que tanto carecerias; ó pobre enfermo, torturado por indizíveis sofrimentos de que a ciência não sabe achar o remédio: reanima-te e espera. Maria tudo vê e tudo conhece: recorre a Ela, invoca-A com fé; Ela será tua esperança e teu amparo. Mater sanctae spei, ora pro nobis.

Coração que se comove e que pode

Não basta, porém, à nossa fé que um coração bem formado conheça os nossos males e deles intimamente sinta compaixão. Quantas vezes acontece que, por motivos inelutáveis, essa delicada compaixão tenha de ficar inútil e vã! Quantas lágrimas e quantas dores no mundo permanecem inconsoladas porque defrontam com verdadeira impotência e invencível incapacidade! Quantas mães teriam socorrido e salvo os filhos até à custa de sacrifícios e de heroísmo inauditos se lhes tivesse sido possível. Mas nunca haverá impotência que limite ou detenha o impulso de compaixão que Maria sente pelas nossas aflições e pelas nossas dores. Ela é onipotência suplicante: não se aproxima do trono de Deus para pedir, qual pobre serva, e sim imperando como gloriosa rainha: Non ancilla sed domina, non rogans sed imperans – Não serva, mas senhora; não rogando, mas imperando (São Pedro Damião).

Recebeu Ela de Deus poder imenso e ilimitado; é tesoureira e dispensadora das graças e dos tesouros divinos. Quem poderá contar todas as misérias que por Ela foram aliviadas? Quem poderá recordar todos os pecadores que Ela arrancou dos abismos onde se afundavam, todos os enfermos que dEla obtiveram a saúde, todos os aflitos que Ela consolou?

Diga-o a nossa própria experiência. Não é verdade que em momentos difíceis e dolorosos, dEla recebemos conforto e salvação? Não foi, talvez, Maria que nos preservou em certos males e nos livrou de certos perigos? Quem afastou de nossa cabeça o raio da justiça divina quando talvez o estivéssemos provocando com os nossos pecados? Quem nos deu a graça de uma boa confissão, da emenda de nossa vida passada e da inteira conversão ao Senhor? Ah! Não nos envergonhemos de confessá-lo com os santos: se não estamos no inferno, devemo-lo à compaixão, à bondade e ao poder de Maria.

Coração que quer o nosso bem

Aliás, não poderia ser de outro modo. Imaginai a mais terna e a mais amante das mães, que ardentemente deseja o bem dos filhos. Dai a essa mãe inteligência tão perspicaz, olhar tão seguro que seja capaz de inteiramente conhecer os filhos, de adivinhar-lhes as lutas e aflições interiores, de intuir todos os perigos a que se acham expostos. Fazei ainda que essa mãe tão amorosa e tão esclarecida tenha a seu dispor a própria onipotência de Deus e dizei-me: seria possível crer que ela não queira consolar, ajudar, salvar os filhos? E caso os filhos conhecessem esses preciosos dotes da mãe, poderiam duvidar do socorro e hesitar em se entregarem totalmente ao coração dela?

Ora, é exatamente esta a nossa venturosa condição. Mãe amantíssima de nossas almas, iluminada para conhecer os males que nos afligem, dotada por graça da própria onipotência de Deus, não só Maria nos quer socorrer, como também este é seu mais ardente desejo e a mais suave alegria para seu Coração.

Ela o quer porque nos ama, porque conhece quão pungentes são as nossas chagas, quão amargas as nossas lágrimas. Ela o quer também porque sabe que deste modo coopera com a bondade e com a misericórdia infinitas de seu Filho Jesus. Pois não foi para isso que Ele nos deu Maria por mãe e a fez tão poderosa? E o coração que lhe bate no peito, pois não é o mais semelhante àquele Coração adorável cheio de misericórdia e compaixão?

Ah! Nós Vos diremos com a Igreja: Salve Regina, Mater Misericordiae, porque nada Vos apraz mais do que derramar sobre as nossas misérias todas as riquezas de vosso Coração de Mãe. Oh! Vede como é terrível o combate contra as paixões que continuamente nos assaltam, a concupiscência que nos atira ao lodo e ao pecado, a aflição do espírito, a dor e a contradição que sempre encontramos em nosso caminho, as enfermidades que nos fazem gemer e suspirar. Para esse cúmulo de misérias e de males não haverá, pois, conforto e remédio em vosso amantíssimo Coração, ó Maria, nossa Mãe? Sim, há, temos certeza e por isso confiamos em Vós.

Sejam quais forem as nossas condições e as nossas necessidades, nunca se extinguirá a confiança que pomos em Vós, ó Maria. É verdade que de modo muito especial olhais para as almas; entretanto, assim como vosso Filho Jesus, Vós as preparais para a graça, consolando com milagres também os corpos e as tristezas temporais. Dos santuários aonde nos chamais, das fontes que santificastes, respondeis com benefícios a estas ternas invocações: “Saúde dos enfermos, Refúgio dos pecadores, Consoladora dos aflitos, Auxílio dos cristãos, rogai por nós!”. Termine nossa vida, ó Maria, antes que essas invocações morram nos lábios ou brotem menos confiantes do coração.


* * *

Fonte: Padre David Ardito, Ó Maria, Confio em Vós, Edições Paulinas, São Paulo, 1946.