O confessionário vazio

Os pecados atuam na alma de forma tirânica, oprimindo quem os carrega. A tristeza do mundo atual é devida ao pecado. Somente evitando-se o pecado pessoal, pela confissão, as estruturas do pecado serão demolidas. Vacilando a pessoa, vacila a sociedade.


Por G. Mazuelo-Leyton
Tradução: Carlos Wolkartt – Catolicidade.com

Com o impulso de determinadas vertentes teológicas, chegou-se ao ponto de exaltar tanto os direitos do homem, sua autonomia e sua personalidade, que, endeusando a pessoa humana ao extremo, esqueceu-se na penumbra a transcendência de Deus, seus direitos e suas sanções.

O homem moderno autoindulgente recusa aproximar-se do Sacramento da Confissão, e busca receber o perdão dos pecados através de um método cômodo, sem o sacrifício de humilhar-se diante do sacerdote. Inflado de autossuficiência, já não é capaz de prostrar-se diante de Deus em um ato de adoração, e tanto menos diante de um homem para obter o perdão de seus pecados.

Por este motivo, muitos abandonaram a confissão, como ecos da declaração protestante: “eu me confesso diretamente com Deus, porque não tenho necessidade alguma de aproximar-me do confessionário”, pensando só no que vão dizer, e nunca no que vão receber.

Além disso, não faltaram sacerdotes que declamaram, ao contrário do que ensina a Igreja, a suficiência da confissão direta a Deus e da absolvição geral (comunitária). A dificuldade da parte dos fiéis de encontrar sacerdotes que lhes administrassem o Sacramento da Confissão foi também um fator que contribuiu drasticamente para o abandono desta prática sacramental.

O Papa Pio XII, na encíclica Mystici Corporis, afirma que a confissão frequente aumenta o conhecimento próprio, desenvolve a humildade cristã, desarraiga os maus costumes, combate a negligência e a tibieza espiritual, purifica a consciência, fortifica a vontade, presta-se à direção espiritual, e, por virtude do próprio sacramento, aumenta a graça. O mesmo pontífice também disse que o maior pecado dos nossos tempos consiste em que os homens perdem cada vez mais a noção fundamental do pecado.

O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a reta consciência; é faltar ao amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo à custa de um apego perverso a certos bens. O pecado é uma palavra, um ato ou um desejo contrário à Lei eterna, já que se levanta contra o amor que Deus tem por nós. O pecado nos aparta de Deus, nosso Pai amoroso e misericordioso. O pecado é o amor a si até o desprezo de Deus.

Os pecados atuam na alma de forma tirânica, oprimindo quem os carrega. A tristeza do mundo atual é devida ao pecado. Somente evitando-se o pecado pessoal, pela confissão, as estruturas do pecado serão demolidas. Vacilando a pessoa, vacila a sociedade.

Nosso Senhor Jesus Cristo, que venceu o pecado, nos chama à conversão – uma derrota do poder do maligno. O cristão deve lutar contra o pecado, convencido de que é um absurdo estar com Jesus e ao mesmo tempo estar apegado ao pecado.

Desconhece-se o efeito maravilhoso e complexo de uma boa confissão, e os prodígios que obra em toda a alma que se prepara dignamente para receber um dos sacramentos que é puro milagre.

O Calvário nos oferece a convincente lição de que Deus busca o mais empedernido pecador, e que toda pessoa opta voluntariamente por sua salvação ou por sua condenação. Junto a Jesus estão os malfeitores. Os dois aleijados de Deus pelo pecado. Os dois estão diante do Inocente que morre entre tormentos que não merece; um Inocente que não protesta contra a injustiça, que assume as penas merecidas pelos demais. Observam o suficiente para pensar e converter-se. Dimas compreende a lição, e admite que ele merece a condenação por causa de sua vida depravada, ao contrário de Jesus, que sempre foi justo. E arrependendo-se, ganha o paraíso. Gestas reage de modo contrário: maldiz Jesus ao atribuir-lhe a pena que está padecendo. Não espera nada deste Salvador. Não aceita seu convite de perdão e de entrada no paraíso. Maldiz a Cristo, não desce de seu soberbo pedestal e desperdiça a última prova de misericórdia que Deus lhe oferece.

O que para um pode ser ocasião de humildade e purificação, para outro pode converter-se em maldição. É consolador este breve diálogo entre São Francisco de Sales e um amigo seu que lhe dirige esta pergunta:

– O que dirias de mim se vos confessasse um crime monstruoso que cometi?

– Diria que sois um santo, porque somente os santos sabem arrepender-se e confessar-se com toda a sinceridade e humildade.

Quando queremos resolver as coisas ao nosso modo, como fizeram nossos primeiros pais, ou como Gestas, nos encontramos com a mesma consequência: a perda do paraíso.