Lutar por uma vida sem mácula

Um recato exagerado, mórbido, acabaria por encontrar o mal onde não existe; mas sustentar que o uso deficiente das roupas seja remédio eficaz no combate à sensualidade, é desconhecer os homens e a moral cristã!


Por Dom Tihamér Tóth

Nos primeiros séculos da nossa santa religião, conferia-se o batismo no Sábado Santo, e os recém-batizados vestiam uma túnica branca durante oito dias, isto é, até o domingo seguinte; daí a denominação de “in albis” dada ao domingo do “Quasímodo” (primeiro domingo depois da Páscoa). Permanece uma lembrança desse fato no gorro branco que o sacerdote põe sobre a cabeça do batizado, simbolizando a pureza em que deve se conservar a sua alma nas tentações da vida. Quando se traz vestes brancas é preciso cuidado para não manchá-las; assim, todo aquele que quiser viver puro deve lutar, e às vezes com muito sacrifício. Guardar a pureza da alma, principalmente em nosso tempo, não é fácil. A obediência às leis de Deus impõe-nos uma reação e vigilância contínuas, além de uma grande desconfiança de nós mesmos.

Muitos são, por isso, os que exprobram à Igreja a rigidez da sua disciplina. A vida é bem mais fácil para os partidários das outras religiões que não têm de observar jejuns, confissão e nem missa.

Infelizes, não pensam nos avisos dos livros santos: “A vida do homem neste mundo é uma grande guerra; e os seus dias são como os dias de um jornaleiro” (Jó VII, 1). Não se recordam mais também de um preceito de Nosso Senhor: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mat. XVI, 24).

Estas palavras do Salvador dão muito bem a entender que não há verdadeiro cristianismo sem o desprezo de si mesmo, a vigilância contínua, a luta contra o nosso sentimento egoísta, e o peso da cruz. Católicos, devemos ter intuição da nossa miséria e da necessidade do governo da nossa alma: pensamentos, desejos, palavras, olhares. Sem o governo absoluto das paixões e dos instintos, não lograríamos vencer a inferioridade humana, transformando-nos em verdadeiros discípulos de Cristo. É particularmente árdua a batalha para a observância do sexto e nono mandamentos; também a recompensa estará em igualdade de condições.

E vejamos o tributo de afeto concedido por Deus às almas puras. Escolhe para Mãe do seu divino Filho uma Virgem Imaculada. Ouvi agora as palavras desse divino Filho: “Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus”. Os puros seguem as pegadas do Cordeiro divino no reino do céu, formando-lhe o séquito: “E são aqueles que não se contaminaram com mulheres, pois são virgens. Estes seguem o Cordeiro para onde quer que ele vá... Porque estão sem mácula diante do trono de Deus” (Apocal. XIV, 4-5).

Para guardar essa pureza de alma há um esforço a fazer, uma batalha a travar e vencer.

Vejamos agora qual a natureza dessa luta, desse combate para realizar inteiramente a vontade do Senhor.

Dois são os seus aspectos: o interior, cuja arena é o nosso íntimo, e o exterior, o meio em que vivemos no mundo.

O combate interior

A moral católica não atribui pecado ao impulso sexual do homem, visto admitir nessa força criadora o plano, a idéia de Deus; essa atividade sexual deve nortear-se dentro das condições estabelecidas por Deus.

Entretanto, ensina a nossa santa religião que desde o pecado original foi profundamente alterada a harmonia preestabelecida entre a alma e o corpo; e com o pecado atual esse desequilíbrio veio acentuar-se ainda mais.

Para compreender a importância e necessidade do domínio dos sentidos, domínio exigido pela fé, cumpre analisar dois princípios: o primeiro está em que desde o pecado original estabeleceu-se em nós um conflito; em segundo lugar, a alma deve dominar o corpo.

Como é sabido, o conjunto harmônico do nosso corpo se acha completamente arruinado ou destruído, desde a queda original. Homem nenhum pode inibir-se a essa luta íntima, a esse combate incessante entre a matéria e o espírito, o bem e o mal, a razão e o instinto, entre o prazer e o dever.

Toda essa luta, porém, carece de importância relativamente à extensão dolorosa da que se desenvolve no terreno da pureza. Em parte alguma são tão incisivas e justificáveis as palavras de São Paulo: “Porque não entendo o que faço, pois não faço o bem que quero, e sim o mal que aborreço. Porque o querer o bem está em mim, mas de efetuar o bem não sou capaz” (Rom. VII, 15-18).

Digamo-lo francamente: na concepção arquitetada pelo mundo moderno sobre a vida sexual, pelos seus excessos, aberrações e anomalias do sentido genésico, entrega-se o homem completamente à imoralidade. Não padece dúvida nenhuma, e nisso está acorde a opinião geral, que esse estado é uma conseqüência do enfraquecimento da vontade, decorrente do pecado original. E todos nós padecemos desse enfraquecimento.

Todavia, que fazer ante o dilema gravíssimo da eternidade?

Não há rodeios, nem subterfúgios.

Nessas condições, aceitamos a divisa: “Minha alma é superior ao corpo; deve, portanto, sair vitoriosa desse combate”.

E, se é mister vencer, por que não enfrentar corajosamente a luta durante a estação da juventude, quando as reservas são maiores, por isso mesmo mais fácil a vitória?

Demais, segundo diz Nosso Senhor: “Ora, que aproveita ao homem, se ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua alma?” (Mat. XVI, 26).

Chegamos assim a entrever o pensamento do cristianismo, quando exige de nós o domínio total dos instintos.

Não o compreende aquele que desconhece o desacordo trágico existente no homem dotado de razão, aquele que não quer render-se a essa evidência, e atribui um julgamento muito superficial a todos esses problemas assemelhando-se ao tribunal de crianças de que nos fala o filósofo grego. Uma maneira de pensar artificial, errônea, própria da multidão e que Sócrates quis escarnecer quando contou a história do cozinheiro e do médico.

Um cozinheiro citou um médico diante de um tribunal constituído de crianças. Ao chegar, expõe a sua queixa: “Meus filhos, estão vendo esse médico? Pois é ele que os faz sofrer tanto com seus xaropes, cortes, queimaduras; fá-los jejuar, tomar remédios amargos, proibindo-os de comer e beber”.

Sócrates não duvida de que os “juízes” vão dar razão ao cozinheiro.

Não se parece com a criançada do tribunal, essa gente que se insurge contra o sexto mandamento porque interdiz o prazer fora das regras estatuídas pela moral?

Se não fossem essas regras, de há muito estaria o mundo reduzido a um vasto hospital ou manicômio. Não nos revoltemos contra os decretos de Deus infinitamente sábio e bom. Não nos lamentemos de ter que lutar denodadamente para obedecer à sua santa lei; ao contrário, regozijemo-nos da visão nítida que temos do dever no presente, para a conquista da eternidade.

Nos grandes navios, dá-se um cuidado excepcional ao isolamento da bússola, para que nenhuma influência magnética possa fazê-la desviar. Dela depende a direção do navio.

Nestes dias, em que a vida contemporânea assemelha-se a um oceano agitado, cumpre a cada um de nós afastar de si toda e qualquer influência perigosa, a fim de manter as suas aspirações na linha traçada pelo Onipotente. Seja o Sinai de onde desceram as tábuas da Lei o pólo que nos envie as suas influências. Os que por ele forem atraídos jamais verão desviado o roteiro do seu destino. Ai daqueles, porém, que dominados pelas paixões, pela vida sensual, varrerem do seu coração a consciência e a fé! Verão definhar a sua inteligência, verão perder-se nas trevas da desgraça o alvo da eternidade.

A Igreja, no seu objetivo incansável de prevenir as almas, aconselha ao homem habituar-se desde a infância ao espírito de luta para o domínio espontâneo dos instintos.

Facilmente podemos constatar, e de modo particular em certas horas, o poder soberano e indomável da matéria, a ação nefasta da sua espátula, quando depois de escravizar-nos, apaga pouco a pouco, implacavelmente, os traços divinos do nosso ser.

A fé nos impõe o dever de lutar, e só por intermédio desta, conseguimos reter em nossa alma os estigmas da divindade, a filiação divina. A semente do carvalho contém o germe de uma árvore gigantesca; porém, ele só virá a crescer e desdobrar a fronde majestosa se evoluir dentro das leis estabelecidas pelo Criador.

Do mesmo modo, na criação, deixou o Senhor na alma do homem o germe da semelhança divina; cumpre-lhe, pois, como o mais sagrado dos deveres, fazer ressaltar essa semelhança.

Ora, somente pelo domínio dos sentidos, pela resistência às tentações, a vitória do espírito sobre a matéria, conseguiremos a liberdade capaz de acentuar em nós esses traços, essa fisionomia divina.

– “Em ti, disse o poeta, há um nobre escravo cuja libertação será obra das tuas mãos”.

Esta libertação, este ascender luminoso por meio de uma vida pura, é a resultante dessa luta tremenda para a independência do próprio eu contra os pensamentos e desejos vindos do foro interior.

De que modo acautelar-se contra os próprios pensamentos? É impossível pecar por pensamentos...

Ouçamos a resposta do Senhor: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para a cobiçar, já adulterou com ela no seu coração” (Mat. V, 27-28).

Conhecedor da alma humana, Nosso Senhor considera os maus pensamentos e maus desejos voluntários como pecado grave. Pesquisas fisiológicas e psicológicas recentemente concluídas vêm justificar esse juízo, na aparência muito severo, de Nosso Senhor. O ato imoral não passa do impulso conclusivo enviado por uma força procedente ou nascida da idéia culposa. Ou, em outros termos, o pensamento é apenas uma centelha, uma fagulha que, abandonada, pode a cada instante abrasar inteiramente o nosso ser. Inflamando a inteligência e a vontade, age sobre todo o sistema nervoso, irrita-o, e as paixões excitadas desencadeiam-se reclamando a liberdade de expansão.

Também, quando Nosso Senhor diz: “Não cometerás a impureza”, reprova não somente o ato impuro, mas tudo quanto a ele conduz. Todo pecado mortal deve ter um prelúdio; o homem não o realiza instantaneamente, e esta preparação constitui uma série de omissões, deslizes ou quedas mais ou menos graves.

Entretanto, é necessário ponderar que o pensamento em si não acusa de pecado, desde que a vontade, o consentimento e o deleite estejam alheios; daí não ser a tentação uma falta.

Quem de nós, na vida íntima, teria fugido a essa dolorosa contingência da tentação, a esse conflito dantesco na arena indefesa da fragilidade humana? O espírito é a força que nos atira para o alto ao mesmo tempo que a carne, nos seus arrancos indomáveis, procura enterrar-nos na gleba miserável do barro de onde foi tirada. Essa luta não é um pecado. Enquanto subsistir a resistência da vontade impregnada no hálito de Deus, não se pode falar de culpa, ainda que a luta seja penosa, ainda que a besta esfaimada do prazer esbraveje dentro de nós em toda a sua loucura e ferocidade.

Entretanto, podemos vencer com relativa facilidade e reprimir os instintos, quando essa agitação se limita ao foro interior. Grande é o número dos que saem vencedores.

Mas bem diversa é a circunstância se uma parte dessa força de reação tende a ser dividida entre o foro interior e o exterior – ambiente: o mundo com toda a sua corte de seduções, prazeres e maus exemplos.

O “front” exterior

Desse foro exterior é bem preciso que vos apresente um pálido resumo: mortos, numerosos mortos. Quantas almas, vitoriosas no primeiro passo da luta contra os instintos, caíram feridas ao vendaval dos maus exemplos, aos ataques insidiosos dos inimigos terríveis e incansáveis.

Filho, que te sentes decidido a combater, ao entrares na liça, vais já enfrentar a zombaria que estigmatiza de ridículo o teu conceito honesto da existência.

Os homens não te podem aprovar porque a sua aprovação lançar-te-ia no opróbrio. Deves recordar-te da fábula do rouxinol. Quando acabou o concerto maravilhoso dos seus gorjeios, as rãs manifestaram o seu consentimento por um coaxar impertinente: – “Se o que acabo de cantar lhes agrada, não deve ser grande coisa, disse ele; não cantarei mais”.

Vão caçoar de ti; serás tido por um simplório se te subir o rubor à fronte ante as suas conversações torpes.

Ah, meu valente amigo que ambicionas defender a tua dignidade, deixa-me dizer-te, que esse rubor da tua face é o privilégio dado pelo Criador aos seus filhos, como uma sentinela alerta contra a invasão da torpeza.

Quando se aproxima o perigo, quando o hálito do mal rodeia nossa alma procurando queimá-la, baixam-nos inconscientemente as pálpebras, e com as suas mãos cor de sol, cobre-nos o rosto o pudor, a cortina rubra da força que nos oculta a presença do adversário imundo.

“Desgraçado do povo que não sabe corar”, afirma um sociólogo.

Observai, não é um teólogo que fala, sim um sociólogo, um sábio que se colocou ante os mandamentos de Deus no simples ponto de vista social e terrestre. Os seus estudos levaram-no à conclusão de que a capacidade de corar – em linguagem cristã: pudor – não representa uma atitude convencional, um hábito hereditário, mas uma qualidade fundamentada, imanente no íntimo da natureza humana e que atesta a dignidade do homem. Dom maravilhoso do Criador, verdadeiro escudo de defesa à cuja sombra o instinto, na arrancada da sua missão criadora, não resvala num transbordamento sensual que tudo destrói.

Ah, orgulhemo-nos de poder corar. Deus, Nosso Senhor, cerca a rosa de espinhos a fim de ampará-la contra o ataque dos insetos, ávidos de trincar as pétalas delicadas da sua corola. O homem, ao sentir a vizinhança do inimigo ávido também de ofuscar a luz da castidade da sua alma, reage, lançando-lhe à frente o rubor das suas faces.

Entretanto, não basta corar. É preciso falar, é preciso elevar a voz onde o silêncio constituiria o sinete de uma traição.

Na verdade, não logramos compreender por que o pudor é covarde e tímido quando o pecado é insolente e audacioso.

Os Orientais conservam uma lenda muito curiosa a esse respeito.

Em caminho, encontra-se um peregrino com a Peste e lhe pergunta:

– “Onde vais?”

– “Vou a Bagdá, matar cinco mil pessoas”, responde o terrível flagelo.

Dias mais tarde, novo encontro; a Peste acabara de cumprir a tarefa sinistra.

– “Disseste-me que ias matar cinco mil pessoas e foram enterradas cinqüenta mil?”

– “Perdão! acusas-me injustamente, disse a Peste; eu contaminei apenas cinco mil, o resto morreu de medo”.

Aí está a causa desconhecida dos danos provocados não só pelas epidemias como pelo contágio moral. Quantos infelizes tendo até então conservado a sua dignidade humana, resvalam para o abismo diante dos desafios e sarcasmos de uma sociedade dissoluta.

Que fazer? Bater-se, chegar às vias de fato? Tornamo-nos agressivos? – Absolutamente. Com inteligência e reflexão podemos abordar todas as questões delicadas.

Certa vez, achava-se o Cardeal Belarmino em visita a uma família principesca. Ao penetrar no salão, sentiu-se ferido à vista de algumas telas pouco decentes que ali estavam. De que modo chamar a atenção aos donos da casa sem magoá-los?...

Ao despedir-se, pediu aos seus amigos um auxílio para socorrer alguns indigentes que tiritavam de frio por falta de roupas. Como o príncipe se prontificasse a dar os agasalhos pedidos, o Cardeal voltou-se e olhou significativamente para os quadros...

Todos compreenderam a lição.

Por toda parte campeia a leviandade: estátuas, quadros, cinemas, peças de teatro, exposições vivas, e tudo isso eivado de malícia, constitui uma verdadeira propaganda de vícios.

– “Que tem a Igreja com estas coisas? – hão de dizer os profanos e incrédulos. É impossível viver assim tão cheios de preconceitos. Cumpre educar os filhos de maneira mais libertária, fora dessas pudicícias; acostumá-los a não corar diante de bagatelas; tornar-se-ão assim mais fortes contra as seduções”.

Engano. Embora encerrem estas palavras uma pequenina parcela de verdade, o raciocínio é falso.

Um recato exagerado, mórbido, acabaria por encontrar o mal onde não existe; mas sustentar que o uso deficiente das roupas seja remédio eficaz no combate à sensualidade, é desconhecer os homens e a moral cristã!

O cristianismo nos recorda sempre a lição dolorosa do pecado original.

Desde a hora em que o homem se revoltou contra Deus, arrastou também nessa onda a revolta dos sentidos contra a razão; e ele se tornou a vítima desse desequilíbrio.

Ninguém pode acusar a Igreja de pregar um falso pundonor quando procura reabilitar o homem. Sirvam de exemplo o texto da saudação angélica, os dois primeiros mistérios gozosos do Santo Rosário; aí estão, na sua linguagem expressiva e pura, sem receio de ferir a alma dos fiéis. A Igreja, ao contrário do que se lhe atribui, dispensa grande estima às obras de arte, defendendo até algumas que podem ainda ser ocasiões de pecado. Como ficamos embaraçados, às vezes, quando visitamos a Itália em companhia de pessoas simples. Sentem-se mortificadas diante de certos quadros e estátuas nas igrejas; parece mesmo conveniente evitar-lhes a visita às celebres coleções do Vaticano. A Igreja, longe de proscrevê-las, sabe dar às artes o valor que lhes compete. Nas obras mencionadas, a nudez não constitui o alvo procurado, mas o meio simbólico de concretizar uma idéia espiritual; e de fato, parece desprender-se delas tantos encantos, tanta nobreza, que chegamos a esquecer a ausência das vestes ou panejamentos.

Quando levantamos a voz contra a moda atual, que tenta libertar-se das vestes; quando condenamos as gravuras, as fotografias, as revistas ilustradas e licenciosas, é porque temos a certeza de que ninguém virá protestar em nome da arte ou da estética. As obras dos antigos estatuários gregos conservam sempre a sua beleza porque representam as linhas clássicas e nobres da beleza eterna.

Poderíamos dizer o mesmo das exposições de nu dos nossos salões?

Entre os artistas de espírito verdadeiramente criador, um sentimento profundo de grandeza velava a nudez dos corpos; um pensamento artístico revestia a sua obra de uma espiritualidade transcendental, ao passo que em numerosas telas modernas a ausência das vestes só aparece para evidenciar a indigência dos seus autores.

Admiramos a magnificência da natureza ou da arte, quando encontramos em suas linhas o respeito e a moral.

Todavia, é bem verdade que se o belo, o verdadeiro e o bem permanecem fundamentos inseparáveis de toda filosofia humana, não é menos verdade também que a estética põe-se freqüentemente a serviço do mal.

Ninguém, até o presente, teria sido prejudicado na sua formação humana e social, havendo observado os mandamentos da Igreja, origem da arte verdadeira; é preciso confessar, por outro lado, que muitas almas deploram a sua queda, conseqüência lamentável da sua temeridade, por não ter oferecido resistência ao foro exterior.

E agora, após estas considerações, é possível que fiquemos perplexos... Que fazer? Fugir, fugir para bem longe do mundo, a fim de salvaguardar o nosso interesse moral.

Não é essa a vontade da Igreja.

Se quisermos conhecer a força que o Cristianismo dispensa ao homem para a sua defesa, lancemos um olhar retrospectivo através da história da humanidade, e encontraremos nos antigos templos do Egito, células de pequenas dimensões, onde alguns ascetas faziam-se murar para o resto dos seus dias, a fim de permanecerem puros ao lado das divindades. Tal é a prova incontestável, mesmo dentro do paganismo, do valor atribuído à pureza, e conseqüentemente do grau da fraqueza humana. Para conservar essa virtude, o homem era obrigado a separar-se do mundo. “Foi então que veio Jesus Cristo, que não é deste mundo, mas veio para reformar o mundo”.

Observai um homem que abraça o estado religioso: pede aos superiores a incumbência dos trabalhos mais humildes do convento: varrer, tirar a poeira, etc. Isto faz compreender a força do espírito cristão. Proceder à limpeza não é serviço muito agradável; a poeira suja as vestes.

Do mesmo modo que o religioso, o cristão que vai viver no mundo deve fugir ao contágio; varrer as imundícies, a lama da humanidade; trabalhar ao peso da sua condição material, sempre, porém, movido pela idéia, pelo impulso do sobrenatural que é o seu fim.

Podem os tumultos da vida desencadear-se contra nós; pode o mundo sacudir a lama dos seus charcos para cobrir-nos; pode a leviandade dos costumes e idéias armar-nos as suas ciladas: se nos conservamos fiéis ao Senhor, todo esse círculo infernal não logrará senão intensificar a nossa resistência ao pecado. Nas catacumbas de Roma foi encontrada, sobre uma velha sepultura, a seguinte inscrição: “Decessit in albis”. Morto em suas vestes brancas, isto é, alguns dias depois do batismo, quando ainda não havia retirado a sua túnica branca.

“Decessit in albis”. Fazei, Senhor, que se realize para nós essa promessa. Se acaso tivermos perdido a nossa inocência batismal, dai-nos, Senhor, a força de lutar com as lágrimas do arrependimento, para a reconquista da inocência perdida.

Sim, ó meu Senhor, lutar, vencer e depois repousar junto de ti. Amém.


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Fonte: Dom Tihamér Tóth, Os Dez Mandamentos, Volume 2, Editora SCJ, 1945.