Heroísmo ou Pecado

Quanto orgulho para o homem moderno dominar as forças ignotas da natureza! Porventura, não seria possível conseguir o domínio da própria natureza? Se não nos tornamos senhores dos instintos naturais, de que modo chegaremos a submetê-los à alma?


Por Dom Tihamér Tóth
Catolicidade.com

Apreço e anuência à vida do infante

Meus irmãos,

Um dos sábios mais eminentes do segundo século da era cristã, Clemente de Alexandria, evoca, em uma das suas obras profanas “O Pedagogo”, a recordação dessas senhoras romanas que tinham por seus cãezinhos, ternos e maternais cuidados, mandando deitar à rua os filhos das suas escravas nascidos no seu solar.

Semelhante e monstruosa depravação, que numa simples evocação provoca o desgosto na alma do célebre sacerdote da Igreja, esta depravação vimo-la quando da nossa última conferência nos referimos a uma das calamidades mais terríveis do nosso tempo: dessa espantosa “Kulturkampf” [1] instituída pelo nosso século, o tão ironicamente apelidado “século da criança”, e empenhada no mais selvagem rigor contra a vida da criança.

Quando o faraó do Egito quis impedir a partida dos Hebreus, castigou Deus o seu povo com vários flagelos, e dentre eles o pior foi a vinda do Anjo exterminador, que indo de casa em casa, feria de morte o primogênito da família. “E então, diz a Escritura, levantou-se no Egito um grande clamor, pois não havia casa onde não se encontrara um morto” (Êxodo XII, 20).

Ainda hoje, meus amados irmãos, a praga que desolou o Egito pesa sobre nós. Talvez não venha ela ferir diretamente os primogênitos; quanto aos demais filhos, porém, recebem o golpe mortal, quer no abotoar da vida (pecado contra o quinto mandamento), quer privado da possibilidade de entrar nela (pecado contra o sexto mandamento). E chegam então aos nossos ouvidos, as lamentações da gente honesta: “Os costumes se pervertem; estamos condenados ao aniquilamento se não conseguirmos deter este flagelo”.

Domingo passado [2] tive a oportunidade de vos fazer sentir o soluçar doloroso desta voz sepulcral que se levanta dos berços que o egoísmo da família moderna deixa vazios. Trouxe à vossa constatação as consequências relativas ao indivíduo e à nação. Todavia, ainda longe estamos de haver encarado todos os aspectos do problema, e hoje procurarei responder às cartas e questões que me foram endereçadas pelos meus ouvintes nestes últimos dias.

Vejamos primeiramente as causas fundamentais que aceleram a gravidade do mal e a seguir, o remédio oportuno contra a sua expansão.

As causas da atual aversão pelo advento da criança

Em primeiro lugar, vamos ver uma das razões apontadas em nome da ciência, o suposto neomalthusianismo, alegado logo de início, o qual, receando uma população demasiadamente prolífica, apresenta o perigo ou a possibilidade da morte pela fome.

Os defensores do malthusianismo atemorizam os pais com o seguinte discurso: “Cuidado! Há muita gente já sobre a terra. A produção dos meios indispensáveis à existência não está em equilíbrio com a população crescente, e se não limitamos os nascimentos, cedo ou tarde a fome virá abater-se sobre o mundo”.

Apresentar teorias é trazer naturalmente água ao moinho dos que procuram escusas convincentes para justificar seu pecado e egoísmo. Ora, meus irmãos, nenhuma força tem argumento, porquanto estamos justamente numa hora de superprodução, numa época em que a agricultura é bem mais intensa, em que se pode entregar à cultura extensões imensas até hoje nunca exploradas, de modo que é possível obrigar ao nosso velho planeta a produzir o necessário não somente para dois milhões de seres humanos, mas sim para seis bilhões.

Nossa boa e velha terra nada tem a ver com o terrível flagelo. E não nos surpreendamos se certas medidas necessárias aparecem sobre o caso. Houve quem quisesse subtrair essa prática da supressão da criança à ação punitiva das leis, tentando riscar da jurisprudência as decisões severíssimas contra esse erro, perseguido até hoje como atentatório à nação.

Tudo isso partindo de um falso princípio, tendo em mira a solução do problema social cuja inquietação, não obstante, continua a existir. É como se procurássemos curar uma enfermidade fazendo desaparecer os seus sintomas apenas com a nossa boa vontade. O sintoma desse mal estar social, desse receio da prole não passa da consequência de um enfraquecimento do senso moral e social da nossa época.

Cumpre não nos demorarmos nos sintomas, porém caminhemos à raiz do mal. E tornando-me mais explícito, dirigir-me-ei a esses economistas tão prudentes, fazendo-lhes ver que a multiplicação de um povo sobre a terra absolutamente não vem colimar com a miséria do mesmo; ao contrário do que se pensa, concorre para lhe desenvolver a força técnica e industrial, aumentando a produção e a riqueza. Dos povos nômades saíram os lavradores que trocaram a charrua pelo arado com a relha de ferro. Por outro lado, a diminuição da natalidade acarreta, para uma nação, a indigência material.

De resto, inúmeras e frequentes vezes já foi constatado que a condição social dos pais, de modo algum, vem justificar o receio da prole. Em várias localidades são ainda as habitações operárias e os bairros pobres que ouvem a algaravia e o barulho das crianças, ao passo que nos palacetes e nas residências luxuosas reina um silêncio de morte.

Em uma rua de um dos bairros mais aristocráticos de New York, contaram as crianças de quarenta e cinco casas, e nessas casas onde a fortuna acumulara o luxo e o conforto, foram encontradas apenas dezessete crianças. Quanto mais uma família é rica e maior quantidade de bens possui, tanto menor é o número dos filhos.

A causa principal desse crime abominável contra a existência da criança não tem por escusas a situação precária do homem, absolutamente não; a causa é, digamo-la francamente, o rebaixamento do nível moral.

Vem contribuir para isso também as novas concepções do mundo sobre a religião, a vida eterna que se nega, a responsabilidade perante Deus que se recalca no silêncio, a vida de prazeres e conforto cada vez mais intensa, todas essas coisas que se estão arraigando profundamente no espírito do homem moderno. Diante de tudo isso, um cortejo de crianças transforma-se naturalmente num obstáculo. E além do que acabamos de ver, outro agente forte de dissolução reside nas literaturas deletérias, no cinema, nas sociedades e ruas da capital.

Todas essas influências endurecem a alma do jovem aos 18 anos, roubando-lhe a aspiração de uma vida honesta e de um matrimônio sadio. E não paremos aqui; outra causa desse pecado abominável está em que as gerações que sobem, aspiram buscar somente a satisfação egoísta dos seus caprichos, olvidando por completo a ideia do dever.

Por toda parte, a corrida dos prazeres até o paroxismo, a exaltação mórbida dos sentidos, a alegria de viver. Por toda parte, invenções diabólicas para aumentar as diversões e diminuir os encargos, as responsabilidades. E a fonte de todos esses erros está, antes de mais nada, na concepção verdadeiramente bárbara que se faz a respeito da criança.

Vem muito a propósito citar algumas cartas recebidas durante esta semana. – “Perdoai-me Senhor, mas meu marido bater-me-ia se desse a vida a mais um filho!”, exclama uma mulher, ao mesmo tempo que outra escreve: “A vossa última conferência condenava o pecado de Herodes; onde quer que eu a ela me referisse, era recebida com zombarias e afirmativa de que desejar um filho é loucura. ‘Evitar os filhos um pecado? Desde quando? Tudo isso não passa de frioleira, tanto quanto obturar um dente! Que mal nos vai em duas ou três obturações por ano, ou duas ou três operaçõeszinhas sem importância?’”. Palavras textuais, meus irmãos, de uma carta! Aí estão as palavras que fazem gelar o sangue nas veias; palavras que fazem estremecer!

Dizei-me, por favor, se peco por exagero, quando sustento que o receio dos filhos é um pensamento cínico, um pensamento egoísta, de uma vida sem cuidados, indiferente, pouco ciosa do futuro, voltada unicamente à conquista dos prazeres; em uma palavra, a concepção leviana da existência e que nada mais tem de cristão.

Pressinto meus irmãos, a resposta que virá às minhas palavras de hoje, e por isso continuo a leitura das cartas dolorosas e amargas dos meus ouvintes...

“Sim, é fácil à V. Revma. discorrer assim do alto do púlpito...”, como se eu ignorasse o número incontável de lares que vivem na mais negra penúria sem trabalho, sem alívio, sem meios de subsistência! Que responder a tão amargos queixumes? Dizer que são injustificáveis, que a sua causa não subsiste em base apreciável? Não o posso fazer, meus amados irmãos. Sou forçado a reconhecer, infelizmente, que nas condições materiais de nossa atual sociedade, circunstâncias atenuantes existiriam em favor de semelhante pecado. São quase insuperáveis as dificuldades materiais para os casais honestos que desejam conduzir as suas famílias numa trilha de moral sadia, dessa moral bendita instituída pelo Senhor.

Reconheço-o e francamente confesso – aliás, é um libelo terrível contra a ordem social dos nossos dias – que na situação para eles criada atualmente, muitos esposos, animados das melhores intenções e tementes a Deus, se veem lançados numa dolorosa alternativa: pecar ou aceitar heroicamente os encargos da família. Acovardar-se ante as responsabilidades e preocupações decorrentes da educação dos filhos e impedir-lhes o ingresso na existência, ou, não querendo contrariar a vontade do Altíssimo, aceitá-los, resignando-se a sofrer com eles as privações, renúncias e sacrifícios que a infância exige. “Heroísmo ou pecado” – um momento de meditação sadia e o nosso espírito decidirá: “Cumpre aceitar o encargo dos filhos”.

Mais fácil dizer do que executar, haveis de retorquir, pois há na fatalidade um limite difícil de ultrapassar.

– “Temos apenas um compartimento (quarto e cozinha) e já possuímos dois filhos”. “Meu marido é mal remunerado e quatro crianças ao nosso lado choram pedindo pão!”. “Minha esposa é doentia e outra maternidade talvez lhe custe a vida”. “Desejaríamos imensamente ter outros filhos, porém seria condená-los irremediavelmente à miséria. Em tais circunstâncias, não parece mais acertado precaver-se contra o seu advento?”. Com idênticas palavras se lamentam os meus ouvintes, portadores das melhores intenções.

De que modo responder a infelizes assim atribulados? Taxar de inócuas as suas queixas? Impossível! Nada resta dizer, confesso. A Igreja Católica, entretanto, reconhecendo a dificuldade da situação, aconselha a continência matrimonial. Mas como?

Repetir-vos-ei, meus amados irmãos, as palavras de São Paulo na sua epístola aos Coríntios (I Cor VII, 19): “Eis que vos digo, meus irmãos, que aqueles que têm mulheres procedam como se não as tivessem.” – Eis aí como a Igreja na sua sabedoria, acode às premências dolorosas das situações insolúveis, na defesa do homem perante as leis divinas. O aumento da prole pode ser sustado, sim, dentro da continência matrimonial.

Quer a esposa, em consequência do seu estado de saúde, não resista a uma nova maternidade, quer a pobreza venha impedir a educação necessária dos filhos – em qualquer um desses casos, só resta um caminho: a abstinência matrimonial, a abstinência pelo domínio próprio. É bem enérgica a expressão, porém muito cristã.

O domínio pessoal, quando reclamado pela situação de família ou pela saúde da esposa, leva o esposo à renúncia dos direitos do matrimônio. E será isso impossível? Seria, porventura, insustentável de repressão a exigência das paixões? Sem o Cristo, meus amados irmãos, creio-o, de fato, irrealizável. Em vão tentaríamos fazê-lo dentro da fragilidade humana. Todavia, na qualidade de cristãos, na oração e na recepção dos sacramentos, nos recomendando a Deus, cabe-nos a certeza de vencer.

Podemos estabelecer o seguinte raciocínio: se alguém me ferir, ninguém pode impedir-me de reagir – a tanto me impele a força impulsiva. Ao passar diante de um mostruário, algum objeto pode agradar-me, e talvez não resista em adquiri-lo sob o império da tentação. Se, por um lado, verificamos ainda a deficiência ou fraqueza de domínio, de controle próprio, é oportuno invocar ainda o poder da civilização e da cultura. Que são estas senão o resultado do recalque dos instintos naturais? A civilização é o dique que resiste às correntes, é a máquina que comprime e regula as energias do vapor, é o dínamo que produz a força elétrica.

Quanto orgulho para o homem moderno dominar as forças ignotas da natureza! Porventura, não seria possível conseguir o domínio da própria natureza? Se não nos tornamos senhores dos instintos naturais, de que modo chegaremos a submetê-los à alma?

A moral cristã, meus amados irmãos, reprova todos os artifícios, pretextos ou cálculos, não somente porque visa manter a santidade do matrimônio, senão porque vê em todos esses artifícios, transgressões gravíssimas contra o quinto e sexto mandamentos. Os direitos e deveres do matrimônio são os que o Senhor estabeleceu, não existindo outros, e a Igreja só aceita duas alternativas: viver no matrimônio segundo a lei de Deus, ou abster-se. E aqui retornamos ao nosso ponto de partida: “Heroísmo ou pecado”, o assunto da nossa conferência de hoje.

Disse o Senhor: “Quem quiser seguir-me, despreze a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt XVI, 24). Ah, não padece dúvida, dirão os senhores, que milhares de homens entrariam no pensamento católico, se a Igreja fora menos intransigente sobre este ponto. Mas à Igreja, meus amados irmãos, cabe sustentar a moral que lhe foi confiada. Por que razão sacrificar ao capricho de alguns homens, suponhamos até milhares, os princípios sagrados? Porventura a Igreja Católica, esta Igreja a quem, por motivo da sua intransigência, recebe tão amargas censuras, teria o direito de alterar a vontade do Criador, mesmo em salubres, em benefício de seres enfermiços que encontram dificuldade para criar os filhos?

Semelhante tolerância viria abrir uma brecha à perversidade humana para a submersão da moral e o aniquilamento da criança. Ao catolicismo não assiste o direito de modificar leis estabelecidas pelo Criador sem trair a missão que lhe foi confiada. Desta forma, a Igreja determina com extrema clareza aos fiéis os seus deveres. Das duas, uma: aceitar a vida conjugal com as suas consequências, ou abster-se nela pela temperança e domínio pessoal.

“A Igreja é por demais severa, cumpre reformá-la”, escreve-me um dos meus ouvintes mal satisfeito. Não, meus irmãos, a Igreja não necessita de reformas, nada há que alterar em sua moral; nossa concepção moderna da vida é que precisa ser refundida.

Meios adequados para lutar contra o pecado do receio da prole

O receio da prole tornou-se um espantalho de tal vulto, que o próprio Estado procura dar-lhe remédio. Permanecer por mais tempo na indiferença, deixar ao abandono um povo entregue a semelhantes ideias de destruição, é votá-lo ao desaparecimento. O receio da prole deve ter, sem dúvida, causas de origem econômica. E não será, naturalmente, outra a perturbação dos casais honestos; do que se depreende de certas reformas sociais e outras tantas disposições de Estado, se tornam imprescindíveis no momento.

Não basta premiar e tecer elogios às mães da prole numerosa; cumpre também participar dos seus encargos criando um sistema eficiente de beneficência. Da sua estruturação não nos compete discutir aqui, como também não nos diz respeito as coisas da política; entretanto, seja dito de passagem, seria óbvio colocar em primeiro plano as famílias numerosas, concedendo-lhes amplas subvenções, além da preferência na distribuição de lugares, como também reduzir a sua quota de imposto de acordo com o número de filhos; e por último, aparelhar jardins para crianças e habitações sadias e confortáveis, embora modestas.

E, além do que foi dito, punir severamente a pornografia, perseguir sem trégua os que cometem o pecado de Herodes, retirar as mulheres das fábricas, dessa vida afanosa de negócios, reformando os direitos de sucessão que favorecem o filho único, etc., etc., isto é, um conjunto de reformas sociais inadiáveis diante da situação atual.

Mas, meus amados irmãos, embora tenhamos de reconhecer toda a assistência estabelecida, e a necessidade urgente de suas reformas, não podemos nos furtar a uma observação: tudo isso é necessário, porém não basta. A verdadeira solução do problema não se encontra na biologia, nem na higiene, nem tampouco na economia política, mas sim na moral que a estabelece e firma, na restauração dos princípios cristãos que urge empreender.

À primeira vista, julgamos poder remediar ao mal com reformas sociais e econômicas. O caso é evidente, irrefragável, uma questão de vida ou de morte, e a cada um de nós cumpre iniciar uma tarefa reparadora; no desencadear das paixões, entre os sofismas enganosos do egoísmo e o conforto da vida, todas as medidas sociais resumir-se-ão em meros paliativos se não forem ditadas pelos preceitos sólidos da nossa fé – eis o que é lícito afirmar.

Os motivos apresentados pela nossa fé são, de fato, nesse caso, de incontestável valor. Aliás, conciliar os interesses do indivíduo com os da comunidade não é tão fácil quanto se pensa. Convencer o indivíduo de que deve assegurar a força e o porvir de uma nação à custa dos próprios sacrifícios não parece coerente com nenhuma instituição humana. Somente a religião pode convencer o indivíduo, expondo-lhe a vontade do Criador; a ela somente cabe elevá-lo acima do egoísmo pessoal, mostrando-lhe a grandeza do sacrifício feito por seu Deus.

Sem incorrer em exagero, podemos afirmar que nos tempos atuais, a Igreja Católica é a detentora universal da única força capaz de salvar a humanidade da destruição.

Pode-se, é natural, prevenir por meio de sanções – meios, aliás, puramente negativos – a greve contra a natalidade. Há indivíduos que não alcançam a gravidade do escândalo de que são objeto e não cogitam da responsabilidade do seu erro, senão tomando conhecimento das medidas adotadas pela Igreja. Esta, por sua vez, reserva-se o direito de, com justiça, punir de excomunhão, por intermédio dos seus bispos, à mãe, ao médico e a todos aqueles que de qualquer modo são responsáveis pela supressão da vida em formação.

Perpetrado o crime, o seu autor, só mediante severa penitência conseguiria ser absolvido. Essa interdição decretada pela Igreja deveria, portanto, despertar a atenção para a gravidade da falta. É digno de nota, e aliás, sobremodo nos orgulha que os países e regiões onde a vida católica é mais intensa, e onde se logrou infundir a extensão da responsabilidade pela supressão da criança, são justamente os lugares onde há maior número delas, no Reno, na Westphalia, no Tirol, na Holanda, Bretanha e países católicos da Hungria.

Todavia, além desses castigos e censuras, meios até certo ponto negativos, tem ainda a Igreja recurso mais poderoso; para ela, o filho é um mensageiro abençoado por Deus. O cristianismo recorda aos pais concomitantemente com seus gravíssimos deveres, a honra que Deus lhe outorgou associando-os à sua obra de Criador.

Responsabilidade dos pais

É necessário reconhecer a extensão dos sacrifícios que encerra. À parte um relativo exagero, diz bem o provérbio: “Quem não tem filhos ignora o que é sofrer”. Realmente. Quanta abnegação, quanto cansaço, quantas noites de vigília exigem o cuidado das criancinhas! Quanto sacrifício, quanta aflição, dias cheios de inquietações, e quanta desilusão também não causam os filhos criados.

Melhor fora não tivessem nascido! Assim dizem os esposos que desconhecem a Providência divina. De outra maneira sentem os que alimentam no coração um sentimento religioso, convencidos de que as preocupações e trabalhos impostos pela educação dos filhos nada representam comparados à desolação que acarreta aos esposos a vida matrimonial inimiga da prole, sem levar em conta os prejuízos compatíveis à mulher.

Por outro lado, também os pais cristãos reconhecem a pouca importância dos trabalhos inerentes à vida da criança, em oposição às alegrias da sua encantadora presença; não olvidam eles que ao lado do provérbio “Quem não tem filhos não sabe o que é sofrer” segue-se a rutilante verdade: “Quem morre sem deixar filhos perdeu as maiores alegrias da terra”.

Na hipótese de incorrer num exagero, perdura um grande fundo de verdade. A criança, digamos de parte, impõe sacrifícios, que são eles, porém, postos ao lado da felicidade imensa que derrama no lar. Ela anuncia uma tarefa, mas é capital precioso; traz inquietudes nimbadas de intraduzíveis consolações; causa de tormentos e sacrário de raios de sol!

Contemplai este casal de velhos, cercado de seus filhos e dos filhos de seus filhos... Foram-se, com os anos, as áureas seduções da vida; tranquilamente, como num sonho de suave confiança, preparam-se agora para a grande, a imensa viagem! – “Meu Senhor e meu Deus! Eis que não tardaremos a deixar sobre a terra as almas que nos confiastes. Quanto trabalho e sacrifício nos custaram, mas educamo-los Senhor para Vós, para a vida eterna”.

De outra parte, o contrário, meus irmãos; esposos que partem sem deixar prole alguma. Partem sem que ninguém venha fechar-lhes os olhos cansados; ninguém virá, com ternura infinita, murmurar entre lágrimas de saudade, um Padre Nosso por suas almas culpadas. E aqui, meus irmãos, encerremos essa questão delicada e ao mesmo tempo dolorosa.

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Há no Oriente uma lenda de uma sabedoria profunda, não pertencente à história; é uma narrativa simbólica, portadora de lição salutar.

Criara Deus o mundo, mas faltava alguém: era o homem. O mar cheio de peixes de toda a espécie, as florestas tomadas por animais de toda sorte; do píncaro dos montes descambava, pelas faldas verdejantes, o cabrito montês; gorjeavam os pássaros num concerto magnífico pelos braços das ramadas.

Ainda não existia o homem sobre a face da terra. E Deus tomou um punhado de barro do Nilo para formar o homem; porém, dentro do limo estava oculto um caranguejo que lhe feriu a mão. Gotas de sangue jorraram, indo cair sobre essa lama de onde Deus ia tirar o homem; e dessa terra umedecida do seu sangue, fez o Senhor o coração da mãe.

Lenda como todas as lendas, mas não deixa de trazer em si o simbolismo delicado da maternidade.

Mães, se concederdes, por acaso, aos vossos filhos a ventura de entrar no mundo, embora com todos os riscos da vossa própria vida, com a impressão de que o seu advento representa para vós o prelúdio de inenarráveis amarguras, fadigas, inquietudes, ai! tende, por favor, a coragem sublime de ser mães; mães que trazem a vida e não a morte; mães que enfeitam os berços de sorrisos e não cerram ataúdes; mães que esperam nesse Deus, que com a dádiva das vidas deixa cair a dádiva generosa do pão; mães cristãs, que mesmo atirando ao perigo a trama dourada dos seus dias, não olvidam jamais a luz divina dos divinos olhinhos do Jesus pequenino de Belém. E a pátria vos chamará bem-aventuradas, e os vossos filhos e os filhos de vossos filhos.

E o Deus Todo Poderoso, o Senhor da vida e da morte, vos há de compensar, vos há de abençoar. Amém.


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[1] Este nome refere-se à luta do estado prussiano, movida pelo príncipe Otto von Bismarck-Schönhausen, contra a Igreja Católica no século XIX, com o intuito de estabelecer legislativamente que a educação, o casamento, etc. deveria ficar sob o controle do Estado.

[2] O autor se refere à conferência “Berços, não! Ataúdes!”, publicada aqui no Catolicidade no link: http://www.catolicidade.com/2014/06/bercos-nao-ataudes.html

Fonte: Dom Tihamér Tóth, Os Dez Mandamentos, Volume 2, Editora SCJ, 1945.