Formação para a vida pura

Que prazer infernal tem o homem corrupto, de arrastar um inocente ao carrascal das torpezas! Não tem qualificativos a alegria miserável desses seres, desses demônios que atacam a juventude inocente.


Por Dom Tihamér Tóth

Branca de Castela, rainha da França, dizia, certa vez, ao seu filho, o futuro São Luís: “Meu filho, amo-te mais do que a própria vida. Em ti se resume toda a minha esperança e consolação sobre a terra. És toda a esperança da pátria! Entretanto, gostaria mais de ver-te morto, ao invés de saber que cometeste voluntariamente um só pecado mortal”.

Palavras sublimes e dignas de uma santa mãe.

Mais tarde, São Luís comprazia-se em repetir que esta advertência materna lhe causara tão profunda impressão, que nunca mais a pudera esquecer.

A solicitude das nossas mães continua a mesma.

Quando elas vêm sentar ao pé dos seus filhos, nos primeiros passos dessa adolescência maravilhosa que desabrocha; quando a sua filhinha, na alvorada dos quatorze anos se lhe aconchega ao peito como o borborinho de asas na concha dos ninhos; e quando elas contemplam esses olhos límpidos e profundos como os lagos das montanhas e esses olhos iluminados se voltam para elas cheios de esplendor, quantos corações, afogados nas lágrimas da ternura maternal, murmuram nesse momento sagrado: “Meu Deus e meu Senhor! Deixai-os assim, guardai as suas almas inocentes para que a lama da vida não venha a salpicar as suas asas brancas. Deixa-nos, Senhor, ver nas suas pupilas, a luz desse mesmo olhar tão calmo e imaculado!”.

É oportuno conversarmos sobre “O problema da educação”; de que modo formar na pureza toda essa geração que sobe, a grande promessa de amanhã.

Não basta saber que o Deus exige da mocidade uma continência perfeita até o pé do altar. A nós, educadores, pais, mestres e sacerdotes, assiste o dever sagrado de ampará-los tanto quanto possível nessa luta penosa, afastando do seu caminho toda sorte de perigos.

Nossos moços, de ambos os sexos, devem conservar a pureza até o matrimônio: é a lei expressa do santo mandamento.

Vejamos, pois: “De que modo auxiliá-los” e “De que perigos protegê-los”.

Como auxiliar os jovens

Segundo o meu modo de ver, o dever do educador se resume em preparar a juventude para, em primeiro lugar, “Conhecer-se e dominar-se”; segundo: “Respeitar e estimar a sua personalidade”; e por último: “Preparar-se para vencer robustecendo a vontade”.

1°) Habituamo-nos a considerar na criança a inocência perfeita.

De nada sabe e nada quer saber.

Entretanto, essa inocência não é virtude, mas apenas um privilégio da sua inexperiência. Tornar-se-á virtude quando, adulto, adquirir consciência da força do instinto sexual que deve disciplinar.

É então o adolescente, o homem evadido da seara ingênua da infância; o adolescente, que percebe em si o latejar dessa força misteriosa, reveladora da vida, quando experimenta aquela perturbação e emoção inexplicáveis.

Oxalá essa pobre criança que caminha para a luz, deslumbrada na angústia indefinível de um mundo desconhecido, possa defrontar-se com um guia prudente, que revele o mistério dessa força que lhe palpita nas veias.

Se a mocidade encontrara na sua jornada educadores dessa têmpera, lograria mais facilmente expandir-se dentro da orientação do sexto mandamento.

No período de formação, em particular, levanta-se, nos jovens, uma tempestade incoercível de desejos, aspirações, sensações incógnitas, cuja origem, fim e motivo lhes são totalmente desconhecidos. Clareiam, então, para a alma adulta, as primeiras madrugadas da puberdade.

De que forma poderão eles descobrir que tudo quanto os perturba – pensamentos, sensações, todo esse mundo desconhecido – faz parte do plano de Deus?

Como poderão adquirir a certeza de que todos esses fenômenos novos que lhes borbulham no ser, não passam do evoluir normal de uma energia superior, da força criadora do Altíssimo confiada ao homem? Que esse impulso do instinto não atribui pecado, e que o pecado só advém do abuso de uma paixão estritamente regulada pela lei divina?

Como poderá tudo isso realizar-se, se os seus educadores oficiais guardam silêncio?

Mas, dirão logo certos pais, torna-se difícil para nós abordar assuntos tão delicados com os nossos filhos!

Eu vos responderei: tão difícil quanto pareça é preciso fazê-lo; é o vosso dever. Deveis falar aos vossos filhos. Cedo ou tarde, esse adolescente que caminha, que ascende para a vida, terá não só a obrigação como o desejo de conhecer a verdade; incontestavelmente pertence-lhe esse direito.

E o perigo para essa juventude não é o desejo de conhecer, porém a maneira pela qual se apresenta a matéria, a maneira pela qual é satisfeita a sua curiosidade. E nesse caso, só a palavra do amor paterno conseguiria chegar ao fundo do coração e acalmá-lo.

Se vós, pais e mães, vos subtraís ao dever de dar aos vossos filhos e filhas a água cristalina que lhe deve estancar a sede, eles irão beber na enxurrada das sarjetas.

Instruí, pois, gradativamente aos vossos filhos; acompanhai com a vossa orientação os anos que correm e se acumulam. Quando menos pensardes a tarefa está terminada e vosso dever cumprido, muito mais facilmente que se confiásseis aos jornais, revistas, livros de medicina, cinemas, teatros e maus companheiros (principalmente estes) o sagrado magistério da iniciação na vida.

Cedo ou tarde, os rapazes adquirem os conhecimentos da vida sexual. Resumidos à sua mais pura expressão, estes conhecimentos nada têm de perigo; e acontece como o metal, a prata, por exemplo, extraída para a realização de uma obra de arte.

Se o preparo da vida se processa na família, com a devida sensatez, o metal trabalhado há de nos trazer naturalmente uma linda imagem da Virgem; ao invés, se a iniciação for confiada ao acaso, à aventura, o metal não logrará apresentar mais do que uma Vênus impudica.

O ponto principal dessa questão delicada seria auxiliar os jovens a tomar posse da sua personalidade total.

2°) A seguir, vejamos a segunda questão proposta: auxiliar os moços a estimar a respeitar a sua personalidade.

É bem singular a concepção da nossa mocidade relativamente à estima pessoal: falso amor próprio ou estima desordenada. Não nos referimos à altivez nobre, ao orgulho sadio; este deve ser cultuado visto construir uma das qualidades do caráter.

A essas vidas cheias de promessa, que são a esperança de amanhã, cumpre dar a entender o grande esforço que lhes está reservado no teatro da vida, em benefício da humanidade. Por aí conseguiremos despertar-lhes o respeito, a estima pessoal. Por sua vez, convencer-se-ão de que a imoralidade pode fazer deles uns fantoches vulgares, incapazes ou falhos de energia; e que o pecado consumindo as reservas e estiolando a sua vida em flor compromete para sempre também as aspirações eternas.

Não é possível subtraí-los ao mundo nem abrigá-los das tentações; podemos, entretanto, formá-los suficientemente para que saibam repelir tudo quanto viria atingir, manchar a sua personalidade física ou moral.

Nas estações balneárias ou cidades do sul, instalam-se cortinados brancos ao redor das camas, pois os mosquitos penetram por toda a parte picando as pessoas adormecidas. Fora melhor destruí-los; mas como? Com o uso dos mosquiteiros podem então zinzinar à vontade sem que por isso deixem de dormir os moradores.

O mosqueteiro branco simboliza o amor divino, essa barreira inexpugnável que protege a paz da alma, esse véu branco que é o respeito próprio, a consciência da pureza íntima.

Meu Deus, quero guardar essa inocência ainda que em meu derredor, veja o mundo inteiro submergido nos lodaçais da miséria moral! Como a flor que desabrocha acima dos pântanos e dos terriços, onde não alcançam os esguichos pútridos do lodo.

3°) Terceiro ponto: ensinar a mocidade a resistir pela vontade.

Para resolver o problema da educação da pureza, não basta invocar apenas a razão e o sentimento. É preciso criar uma vontade forte.

Quantas vezes os educadores enfrentam, desanimados, situações difíceis de resolver; não obstante a máxima boa vontade, os pobres rapazes não têm a força de reagir contra a indolência ou sensualidade. Pobres almas desamparadas, condenadas ao fracasso. Sofrem as conseqüências funestas dos mimos excessivos do lar.

Na maioria dos casos, os deslizes da moral poderiam ser facilmente evitados, se na formação dos primeiros anos cuidara-se mais de educar a vontade. A ausência desta transtorna-lhes a vida presente, e mais tarde na velhice, parecer-se-á com um círio aceso, cuja chama obedece ao impulso do vento, e como tal, irá morrendo aos poucos.

Vários são os auxiliares para a formação da vontade: leituras sérias, apelos à razão, exercícios de mortificação ou disciplina.

Embora eficientes, estes meios não se completam.

De todos, parece-nos o mais enérgico a confissão e a comunhão, fonte inesgotável da resistência, que ultrapassa todos os sistemas pedagógicos do universo.

Habituemos a nossa mocidade a recorrer a esses dois sacramentos, para ela tão necessários na educação da vontade e formação do caráter.

O que acabamos de ver é apenas um ligeiro esboço do que se poderia chamar o trabalho positivo da educação da pureza. Existe, por outro lado, a parte negativa, que são as medidas de proteção e defesa contra o mal.

Os conselhos serão ineficazes se não secundados por medidas protetoras contra os perigos múltiplos que progridem de maneira assustadora no ambiente social moderno. Amparar a pureza constitui sempre um problema difícil, hoje torna-se quase insuperável.

Perigos que devem ser afastados da juventude

Quais serão os perigos que devemos afastar da juventude?

Não vos admireis, se antes de tudo vos recomendar uma coisa, que à primeira vista parece incoerente: subtrair a alma da criança à inconcebível leviandade de certas mães.

Parece impossível precaver o filho contra sua própria mãe!

Vós, ó mães que tendes filhos, não vos revolteis ante a minha franqueza talvez um pouco severa; mas quantas jovens ainda inocentes e ingênuas, teriam em melhor conta a pureza da sua alma, vestir-se-iam com mais decência e observariam com mais recato as suas atitudes, se não fossem induzidas a agir de maneira diferente.

Certas mães, naturalmente impulsionadas por um falso amor próprio, e sob o pretexto de que se outra forma é impossível conseguir bons partidos para as filhas nos tempos atuais, facilitam demasiado nesse terreno.

Compreendo a suscetibilidade do assunto que abordamos, e não ignoro estar arriscado a ver mal compreendidas as minhas palavras. Ante essa expectativa, seria preferível entrar na matéria através de uma velha história: a de Ló e sua família, e de que modo vieram a perder a alma as suas filhas.

A Sagrada Escritura não é muito explícita no caso; mas, diante dos resultados não será muito difícil reconstituir o plano adotado na educação daquelas jovens.

Ló não conhecia Sodoma; residira sempre ao lado do seu parente Abraão. Com o andar dos tempos, a vida campesina tornara-se enfadonha para sua esposa. Aquilo era bom para Abraão e Sara, sua mulher, ambos já velhos e cansados, dizia ela a seu marido.

“Para nós que temos filhas a educar e casar, não convém a vida do campo, melhor seria estabelecer-nos em Sodoma. Na vida da grande cidade as relações são mais escolhidas, adquire-se maneiras distintas, chiques e acompanhando a moda; poderiam nossas filhas encontrar um bom marido; na Igreja é que ninguém virá procurá-las. Não achas razoável o meu pensamento?”

“Sim, teria respondido este, mas os rapazes de Sodoma são muito levianos!”

“Ora, isso dizem as más línguas – respondeu a mulher. Pelo fato de serem alegres e desenvoltos não devemos julgá-los mal. Se fôssemos obrigados a ouvir as tagarelices dos outros, perderíamos o juízo; é melhor fazer-se de surdo. Além de que, disse, voltando-se para as filhas, vocês já têm alguma experiência, e não se assustariam, por certo, se algum malcriado se excedesse um pouco nas atitudes. Deus há de guardá-las. Aliás, essas coisas são de mínima importância. E, por que não usar de franqueza? Vive-se uma só vez, e a juventude é uma só!...”

Tais seriam, mais ou menos, os propósitos da senhora Ló na presença das filhas.

Não o transcreve a Sagrada Escritura; porém, é inegável ter assim acontecido, visto que, segundo refere, aquelas crianças que até ali haviam permanecido na virtude ao pé de Abraão, homem sábio e temente a Deus, foram envolvidas em Sodoma pelo turbilhão das seduções, que as arrastaram ao pecado (cf. Gen. XIX, 31, 38).

Não viriam a cair assim ao último plano se uma mãe imprudente não as levara à cidade do prazer.

Nada mais é preciso acrescentar ao quadro; não vos admireis, pois, se certas mães nos trazem, às vezes, à memória a triste recordação da senhora Ló e suas filhas.

Os pais devem respeitar os filhos e ampará-los contra os perigos. E onde estarão esses perigos?

Ah, de um modo geral, nas variadíssimas tentações do mundo.

Pais e mães, respondei-me: Que lêem as vossas filhas? Qual a sua correspondência? Quais as sociedades freqüentadas por vossos rapazes? Quais os seus amigos?

De nada sabeis!...

Não queremos dizer com isso ser necessário guardá-los com sentinelas à vista; mas há sempre entre pais e filhos uma afetuosa intimidade que impede à filha ler livros proibidos sem o consentimento materno; e ao filho, por sua vez, não freqüentar às escondidas, reuniões suspeitas.

Certa mãe, aflita por causa da saúde precária do filho, procurou um médico:

– Doutor, vim consultá-lo a respeito do meu filho; peço-lhe que o examine minuciosamente. Para facilitar a sua tarefa, dar-lhe-ei algumas informações.
Meu filho acaba de completar dezessete anos; de uns tempos a esta parte anda nervoso, taciturno, e encerrado no seu quarto; passa o tempo a ler...

– Perdão, senhora, mas que lê ele?

– Para confessar a verdade, não sei! Não é possível fiscalizar sempre um rapaz dessa idade.

– Hum! A senhora poderá dizer-me se à noite fica em casa?

– Por quê? Às vezes, sim; outras, vai ao teatro, ao cinema, ao dancing...

– Compreendo. E o pai acompanha-o?

– Oh, doutor, um rapaz dessa idade não tem mais necessidade de que o acompanhem. O senhor sabe, em Paris, entre rapazes, moços e moças, os convites são feitos por um simples cartão trazendo apenas as iniciais “S. B.”.

– Que quer isso dizer?

– Sem bagagem, isto é, sem os pais. Meu filho, porém, diz que só freqüenta as rodas escolhidas. Não podemos duvidar, nem vigiá-lo; seria uma afronta.

– Muito bem, estou perfeitamente orientado a respeito do seu filho; não é preciso que o veja, o meu diagnóstico está feito. Aconselho-a mandá-lo diretamente ao seu confessor, minha senhora.

– Ao meu confessor? – repetiu aturdida a pobre mulher, que já perdeu a conta dos anos que não se confessava.

– Certamente, minha senhora, ao seu confessor; o seu filho sofre de um mal que escapa à medicina. Somente a fé poderá curá-lo.

Meus irmãos que me ouvis, mais uma vez eu vos repito: protegei os vossos filhos contra as seduções do mundo.

É um dever sagrado afastar as crianças, os filhos, do contágio do mau exemplo, às relações de maus companheiros, principalmente mais velhos.

A propósito, desejo ler-vos o que me escreve uma mãe consternada: “Meu filho, com dezoito anos, atacado de forte congestão pulmonar, foi recolhido ao hospital para receber o tratamento necessário. Seu vizinho de enfermaria, um homem de cinqüenta e dois anos, contou-lhe então sua vida, viagens, noitadas de prazer...”.

Não posso continuar a leitura; a nossa dignidade sentir-se-ia revoltada diante das torpezas que o pobre moço confessou à sua mãe ter ouvido daquele homem.

Parece-nos estar presenciando uma daquelas cenas de Dante, em que serpentes agarram o condenado e o constringem, como a hera enlaça o carvalho. A figura desse desgraçado parece metamorfosear-se tomando o aspecto hediondo da serpente tentadora, quando procura atrair para o charco aquele jovem ainda cheio de inocência.

Que prazer infernal tem o homem corrupto, de arrastar um inocente ao carrascal das torpezas! Não tem qualificativos a alegria miserável desses seres, desses demônios que atacam a juventude inocente.

Porventura, não teriam esses vivedores lido alguma vez as palavras terríveis de Nosso Senhor: “Porém, aquele que escandaliza um desses pequenos que crêem em mim, fora melhor que se lhe atassem ao pescoço uma pedra molar e o precipitassem ao fundo do mar” (Mat. XVIII, 6).

Porventura, não teriam lido as palavras do grande ministro de Deus, o Cardeal Pazmany, primaz da Hungria: “Só conhecemos um caso em que Nosso Senhor tenha castigado alguém durante a sua vida mortal: foi quando viu profanar o templo do Eterno Pai. Se nos demais casos, Nosso Senhor concedeu sempre o perdão, inúmeras vezes, de que modo há de tratar os que desrespeitam não só as paredes do templo, mas os próprios templos do Deus vivo, que são as almas cristãs; templos profanados não pelos animais destinados ao sacrifício, mas pela mais infame das abominações?” (Pazmany, Obras V, 446)?

É incompreensível a perversidade desses miseráveis quando impelem ao pecado, inocentes que dele não tem a mínima noção. Que sensação diabólica experimentariam essas almas perdidas, para não conseguir suportar ao seu lado a candura de outros seres incontaminados!

Faz lembrar o que dizia do elefante o grande Plínio, escritor dos tempos passados. Afirmava ele, que esse animal, quando sedento, se aproximava do rio para saciar-se, e na limpidez das águas via refletida a sua imagem, enfurecia-se e patinhava até que a água ficasse turva completamente, e só então saboreava-a a largos tragos.

Os naturalistas contestam essa notícia ingênua.

Há homens que experimentam uma espécie de frenesi quando se avizinham da inocência; sentem um ímpeto invencível de expor a sua torpeza para atrair as almas ao vício.

Pais, educadores, protejam vossos filhos, afastai-os dos entes corrompidos e maus.

Meus amados irmãos, por penosa que se afigure, seja-nos permitido dizer uma grande verdade: na Roma pagã eram maiores os cuidados que se dispensavam à moral simplesmente humana, que entre os povos cristãos da atualidade.

De uma feita, correu a notícia de que se organizara uma sociedade de oito mil membros, cujos estatutos haviam cancelado todas as leis da moral.

A estupefação chegou ao cúmulo!

Essa gente, liberta de todos os preconceitos, atirava-se à prática dos atos mais nefandos da bestialidade.

Não tardou a ser descoberto o ninho das víboras: o povo romano mandou trancar as portas da cidade a fim de capturar os filiados a essa triste associação. Entre eles foram encontrados vários nobres, patrícios e senadores. Todavia, os juízes tornaram-se implacáveis; quatro mil, considerados mais responsáveis, foram executados, e os demais enxotados de Roma.

Encontrareis a relação desse lúgubre episódio no 39° livro da história de Tito Lívio.

Assim é, que aquela Roma pagã vigiava pela moral dos seus habitantes.

Se percorrermos as ruas de nossas metrópoles, sentiremos confrangido o coração. Essa valente mocidade do país, vive espicaçada pela propaganda dessa miséria, exposta em todos os lugares. São inúteis as medidas moralizadoras dos nossos tempos.

Ficareis admirados se eu vos disser que todo esse estado de coisas é inamovível! Como viver de outra forma, buscar outras idéias, quando o teatro, o cinema, jornais, romances, ruas, vitrinas, reuniões, são uma aclamação contínua ao pecado, o triunfo da futilidade, do prazer doentio? Não há nas nossas capitais um só local mais ou menos freqüentado, onde não venha a surgir em dado momento, uma excitação ao prazer. Não nos cause espanto depois, se os rapazes de quinze ou dezesseis já trazem um olhar viciado pelo fogo da concupiscência, que esgota as almas e arrefece o valor para o trabalho!

Como estranhar se verificarmos de contínuo, nesses jovens, uma ardência, que satisfeita, prepara uma ameaça terrível para o futuro? Que esperar dessas criaturas, cuja saúde, vida e energia muscular, dissolvem-se, desmancham-se, na engrenagem demolidora dos vícios?

Não vos magoeis se assim vos falo, francamente, sem rodeios. Contemplai essa juventude que desmorona inadvertidamente; o descalabro das gerações presentes responsabiliza as gerações anteriores.

A liga contra a tuberculose lançou há pouco à venda, um selo, aliás muito sugestivo. Representa uma linda mocinha no quadro de uma janela que acaba de abrir. Tão festiva está a sua fisionomia que o sol banhando-a com sua luz dourada parece gritar-lhe: “Viver! Viver!”.

Há, entretanto, um tesouro mais precioso que a saúde e a vida terrena; é a alma, e existe para matá-la uma enfermidade mais perigosa que a tuberculose: é a imoralidade.

Muita coisa não se explica neste mundo. Entre essas está o caso dos pais cuja indolência, inadvertência ou apatia, não reage diante desse desafio à moral que se ostenta por toda a parte, quer nas casas de diversão, quer nas letras ou gravuras; nesse ataque de devassidão, que destrói por sua propaganda os mais nobres impulsos, as mais belas aspirações do espírito dessa mocidade, dessas crianças, fazendo delas organismos mutilados, que no futuro irão pagar com um tributo usurário à fatalidade, esses prazeres cujas insídias ignoravam.

Meus caros irmãos, deixai-me terminar agora dizendo-vos algumas palavras consoladoras, raios de sol que atravessem a penumbra triste de uma tempestade que acaba de passar.

O quam pulchra est casta generatio.
(Como é bela a geração casta).

Esse brado que a Igreja repete no ofício das Virgens, é emprestado à Sagrada Escritura: “Oh! como é bela e gloriosa a geração casta, porque a sua memória é imortal e é conhecida de Deus e dos homens. Imitamo-la quando está presente, e a sua ausência nos causa tristeza; coroada para a eternidade, triunfa depois da vitória, vencendo incontaminada os combates”.

Donde vem esta alegria tão profunda e rara na Sagrada Escritura? Qual o motivo para que essa virtude seja assim tão decantada?

Seu valor vem, naturalmente, da dificuldade quase insuperável de conseguir, no mundo moderno, essa harmonia, esse equilíbrio admirável da alma para o corpo, harmonia destruída anteriormente pelo pecado original.

O campo da atividade da alma é o corpo; a ele pertence assegurar àquela o primado da inteligência e da vontade sobre a matéria e os sentidos. E o fortalecimento desse primado espiritual, o domínio da alma, é imensamente difícil de ser realizado no sexto mandamento. Quando, porém, acontece, é o triunfo, e completa-se o equilíbrio interior, a harmonia e a paz. E esse gáudio íntimo da alma não permanece oculto; há como que um transbordamento de graça, que se manifesta numa irradiação, numa beleza sobrenatural.

E podemos então pensar com a Sagrada Escritura: “Oh! quanto é bela a geração casta!”.

Que glória a desses homens que sorriem através do martírio, seres radiosos dentro das trevas, super-homens que triunfaram no lodaçal das paixões, vitoriosos pelo caráter e pela vontade.

Meus irmãos, desejais que vossos filhos sejam homens dessa têmpera? Quereis que vossas filhas entrem na coorte das mulheres heróicas?

Se verdadeiramente o desejais, ajudai-os, protegendo-os e educando-os sadios de corpo e alma.

Amém.


* * *

Fonte: Dom Tihamér Tóth, Os Dez Mandamentos, Volume 2, Editora SCJ, 1945.