A verdadeira idéia da Sagrada Comunhão

da mesma maneira que é de essência da nutrição física o alimento ser um ato freqüente e habitual da vida de nosso corpo, assim também é de essência da sagrada Comunhão o alimento ser um ato ordinário e habitual da vida cristã.


Por Monsenhor de Ségur
Tradução: Carlos Wolkartt – Catolicidade.com

Nosso Senhor Jesus Cristo está real e efetivamente presente na divina Eucaristia. É de fé, e assim hão crido os católicos de todos os tempos e lugares. Embora oculto nos acidentes de cor, odor, sabor, peso e dimensões, na Hóstia consagrada vemos o sacratíssimo Corpo glorificado e celeste de nosso Redentor, o qual repousa perpetuamente em nossos altares para ser o centro do culto divino e dar às nossas almas, na Comunhão, a força necessária para perseverar unidas com Deus.

Propriamente falando, a Comunhão não tem por objetivo nos proporcionar uma relação íntima, sentimental ou afetiva com Jesus Cristo, pois uma verdadeira relação com o Redentor se obtém pela graça; já está em nós, como nos ensina a Sagrada Escritura.

Tampouco a Comunhão tem por objetivo dar-nos a vida da graça, ou seja, a vida espiritual que resulta de nossa união com Deus. Não pode comungar aquele que não vive esta vida, aquele que não está unido a Jesus Cristo por meio da graça; caso contrário, a Comunhão seria um horrendo sacrilégio.

Qual é, então, o verdadeiro objetivo da Comunhão? Alimentar a união santificante e vivificante de nossa alma com Deus; manter e robustecer em nós a vida espiritual e interior; impedir que desfaleçamos nos desgastes e no combate da vida, perdendo a santidade que Deus nos infunde por meio do Batismo e da Confirmação.

A graça particular do sacramento da Eucaristia é, portanto, uma graça de alimentação e perseverança. É assim que Nosso Senhor Jesus Cristo, ao falar-nos da sagrada Eucaristia, declara que ninguém pode viver a vida cristã sem a condição de comungar. “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” [1].

Quem quiser ser cristão e permanecer unido com Deus, deve participar da Eucaristia. O que acontece com o corpo, acontece com a alma. Para viver, é necessário comer; a comida não dá a vida, mas a alimenta e lhe comunica aquela força que lhe constitui a saúde. Nisto, o corpo é figura da alma. A alma tem sua vida, resultado de sua união com Deus por Jesus Cristo. Esta união se chama graça, e para subsistir, é necessário um alimento. Este alimento é Jesus Cristo, que disse de si mesmo: “Eu sou o pão da vida. Porque a minha carne é verdadeiramente comida, e o meu sangue é verdadeiramente bebida. O que come minha carne, e bebe o meu sangue, fica em mim e eu nele” [2].

Assim como o corpo não pode conservar a vida sem comer, tampouco a alma pode perseverar na graça sem comungar. As forças e a saúde do corpo dependem dos alimentos que toma; do mesmo modo, a santidade e o vigor da alma dependem da Comunhão.

Entende-se bem que a Comunhão não é uma recompensa da santidade adquirida, mas um meio – e nada mais que um meio – de conservar e aumentar a graça, e de chegar à santidade. O alimento corporal tem um caráter idêntico: não comemos porque temos forças, mas para conservá-las ou obtê-las.

E da mesma maneira que é de essência da nutrição física o alimento ser um ato frequente e habitual da vida de nosso corpo, assim também é de essência da sagrada Comunhão o alimento ser um ato ordinário e habitual da vida cristã.

Esta é a verdadeira ideia que a Igreja católica nos comunica sobre a divina Eucaristia. Assim, o concílio de Trento, invocando o testemunho de todos os séculos cristãos e dos Padres da Igreja, expressa formalmente o desejo de que “na missa os fiéis comungarão, não só espiritualmente, mas também sacramentalmente, a fim de que coletem frutos mais abundantes do santo sacrifício” [3].

E o Catecismo romano, composto por ordem do concílio de Trento e publicado oficialmente pela Santa Sé, sancionado por numerosas Bulas apostólicas e recomendado por muitíssimos concílios provinciais, acrescenta estas graves palavras, cuja autoridade é peremptória [4]:

Não se contentem os fiéis de receber o Corpo de Nosso Senhor uma única vez cada ano, para se submeterem à determinação do decreto. Persuadam-se, pelo contrário, de que é preciso fazer mais vezes a Comunhão Sacramental. Todavia, não se pode dar a todos uma norma determinada, se lhes é mais aconselhável comungar todos os meses, todas as semanas, ou todos os dias. Ainda assim, temos por muito acertada aquela regra de Santo Agostinho: “Faze por viver de tal modo, que possas comungar todos os dias”.

Será, pois, um dever do pároco exortar, assiduamente, os fiéis a que se não descuidem de alimentar e fortalecer, todos os dias, as suas almas pela recepção deste Sacramento, do mesmo modo que também julgam necessário proporcionar ao corpo uma alimentação diária. Compreende-se, perfeitamente, que a alma não tem menos necessidade do alimento espiritual, que o corpo do sustento material.

Neste passo, será de muito proveito lembrar-lhes, de novo, os imensos benefícios divinos, que nos obtém a Comunhão Sacramental da Eucaristia (...).

Acrescente-se também aquela figura do “maná, que devia refazer todos os dias as forças do corpo”. Da mesma forma, vejam-se as declarações dos Santos Padres, que muito encareciam a recepção frequente deste Sacramento. Entre os Padres da Igreja, Santo Agostinho não era o único a perfilhar a seguinte doutrina: “Tu pecas mesmo todos os dias. Comunga, pois, todos os dias”. Quem investigar atentamente, há de logo reconhecer uma perfeita conformidade de doutrina entre todos os Santos Padres, que se ocuparam do assunto em suas obras.

Esta é a verdade, esta é a vontade de Deus, esta é a regra que Ele nos dá pela palavra augusta e infalível de sua Igreja. Por fim, estabeleçamos algumas distinções importantes:

Comungar três ou quatro vezes por semana, e com maior motivo, comungar todos os dias ou quase todos os dias, é comungar com frequência, e com frequência absoluta.

Tratando-se dos sacerdotes, dos religiosos e religiosas, dos seminaristas, e em geral dos cristãos que fazem profissão de aspirar com zelo e fervor à perfeição, comungar somente aos domingos e dias de festa não é comungar com frequência. Porém, deste modo é realmente comungar com frequência no que concerne às crianças e à grande massa de fiéis que não podem consagrar muito tempo às práticas da piedade.

Comungar uma vez ao mês ou nas grandes festividades não é uma Comunhão frequente para ninguém, nem para os filhos do povo, nem para as gentes do campo, nem para os trabalhadores. Isto não quer dizer que não seja uma prática excelente que deva lhes recomendar encarecidamente quando não se pode alcançar mais; porém, de todos os modos, não é a Comunhão frequente.


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[1] João VI, 54.
[2] João VI, 48, 56-57.
[3] Optaret quidem sacrosancta Synodus, ut in singulis missis fideles adstantes, non solum spirituali aflectu, sed sacramentali etiam Eucharistiae perceptione communicarent, quo adeos sanctíssimi hujus sacrificii fructus uberion proveniret (Conc. Trid., sess 22, c. VI).
[4] Cat. Rom., de Euchar. 58.