A importância do Pai na família cristã

Como é triste o vazio dos pais em nossos lares! E mais desolador ainda é o vazio de uma sã paternidade no coração de tantos homens. A paternidade não pode ser um simples acessório em suas vidas, mas deve ser algo essencial: esta é a grandiosíssima tarefa dos homens. E será mais fecunda que todos os tratados e pactos, e mais eficaz que todos os vãos sistemas pedagógicos.


Por Padre Pavanetti, SDB
Tradução: Carlos Wolkartt – Catolicidade.com

Um dos grandes males que tem atormentado a humanidade há décadas até hoje é, sem dúvida, a crise da autoridade em todas as esferas da atividade humana.

De fato, atualmente a sociedade inteira sofre as consequências desta prolongada crise que caiu sobre o homem e o fez sua vítima, e que está gravitando e perturbando, sobretudo, o interior dos lares, onde a autoridade não só tem uma função de conciliação e regulação disciplinar, mas que é também fator indispensável para a reta formação do caráter e para uma sã educação moral dos filhos.

O nocivo ambiente político que vem regularizando em leis explícitas o antinatural (união homossexual), as imorais doutrinas sociais, a desintegração da família, a má preparação da juventude para afrontar suas responsabilidades, o predominante hedonismo (a busca do prazer por prazer) como estilo de vida e, sobretudo, a ausência das virtudes cristãs que nos ensina o Evangelho – tudo isto resultou no terrível caos que estamos vivendo: a carência de autoridade por um lado e, por outro, o aumento de rebeldias, insubordinações, irresponsabilidades, vulgaridades, grosserias, roubos e tantas outras desordens que devem fazer-nos meditar.

A crise que hoje padecemos, especialmente nas casas de família, é consequência da ausência de um conceito claro e de um exercício consciente e firme da paternidade.

Se a mulher tem deturpado sua verdadeira missão na vida e desertado de seu lar e de suas funções de mãe, o homem também não fica para trás.

Pelo fato de não se dar a devida importância a esta responsabilidade do homem no lar, este pai de família acaba, por fim, abandonando o seio familiar sob mil desculpas sem nenhum motivo sério, descarregando na mulher a educação dos filhos com um singular egoísmo e descuidando dos problemas íntimos como se os filhos fossem somente uma coisa qualquer.

Tudo isto resultou em um assombroso desenvolvimento de tendências homossexuais entre os jovens, que se deu pelas relações insatisfatórias com o pai na família em um ou vários momentos importantes da vida. A toxicodependência, o alcoolismo e a criminalidade juvenil são devidos também à posição débil ou à ausência do pai; a falta de uma relação afetuosa e compreensiva entre pai e filho é uma característica prevalente nos jovens envolvidos na criminalidade. Muitas autoridades afirmam que a causa de tanta delinquência está também nas escandalosas proporções de divórcio e de fracassos matrimoniais. Os pais que não tiveram êxito no matrimônio certamente nunca darão a seus filhos um real exemplo de como um homem deve viver este laço familiar com sua esposa.

Neste desconcerto trágico da juventude, o pai tem a maior parte da culpa. Deus pôs o homem como o chefe do lar, e sobre ele pesa, portanto, uma acusação gravíssima quando os desastres são tão evidentes.

A dignidade da paternidade
 
Nesta época de predomínio do materialismo, do ensinamento positivista que formou os atuais pais de família, do estouro passional ao qual a juventude se lançou a partir dos anos 60 com os hippies e a revolução sexual, da inexistência da educação religiosa e do império do laicismo destruidor: tudo isso pesou na formação de inúmeras gerações de homens, que se viram como “pais” sem saberem nada sobre sua dignidade e responsabilidade. Vivem uma realidade, ignorando seu valor: sua dignidade humana e sobrenatural.

Ser pai significa sentir-se tão homem a ponto de ser capaz de arcar com a responsabilidade de formar outro homem, isto é, compreender a vocação de Deus que o chama a colaborar com Ele na criação de novos seres. Ser pai significa ter vivido de tal modo sua própria vida enriquecendo-a com tantas virtudes, que os filhos sintam o orgulho de tê-lo como origem e fonte de sua vida.

Ser pai significa sentir-se tão maduro na justiça e na verdade, a ponto de ser capaz de dar aos seres procriados por seu amor toda a educação humana, firme e forte, reta e santa, que os faça dignos e felizes.
 
Ser pai significa que o amor criador não morre, mas ressuscita a cada dia na recriação contínua que consiste em construir, a cada instante, um caráter.

Ser pai denota viver somente para seu lar, dar todas as preferências ao lar, viver no lar e para o lar. E todo o amor, a preocupação e o tempo negados aos filhos constituem uma traição que nada pode justificar.

Porém, se tudo isso é projetado no plano sobrenatural, a paternidade humana adquire um valor e uma ressonância indubitáveis.

Deus criador viu o ser humano cair em pecado, mas esse ser foi redimido por Cristo; foi feito partícipe da natureza divina pela graça santificante; foi adotado como filho de Deus, destinado à contemplação direta dEle no Céu.

O filho é um templo no qual moram as três Pessoas divinas e no qual o Espírito Santo realiza os planos eternos do seu amor. Para isso, os pais levam seus filhos à Igreja para serem batizados, e depois os preparam para o primeiro encontro com Cristo. E é Cristo o ideal segundo o qual se deve formar a alma humana. E para a amizade com este Cristo, deve-se lutar por toda a vida: tudo isso é educar.

E para essa educação sobrenatural é necessário o Espírito Santo, que ao dirigir toda a obra de santidade, não pode fazê-lo sem o pai de família, pois sua vigilância, sua autoridade e seu amor são os melhores instrumentos para cultivar a alma da criança. E toda esta imensa e divina obra da educação deve ser feita em união com a esposa, e ambos devem santificar-se, e devem fazer de seu lar um santuário.

Quem nunca pensou, com um profundo senso do dever, nas obrigações e na dignidade excelsa desta vocação?

Falta de preparação

Atualmente, há um triste vazio nos lares modernos porque os pais desertaram do lar ou desertaram de sua função de educadores.

Isto se deve à nossa época absurdamente materialista e adoradora do progresso positivo e técnico, que não transmite uma mensagem para o espírito; as qualidades e as virtudes morreram.

Este empobrecimento de virtudes humanas e sobrenaturais, esta anemia espiritual atraiu como consequência trágica o fenômeno inexplicável de pais que não sabem para que fim são pais, quitada sua função animal.

O que os pais sabem sobre educação? Nada. Todos improvisam quando querem fazer algo. Os que creem saber são os que pior atuam. Vendo-se que é ignorado, é princípio de sabedoria. Em muitos dos casos, sempre é o desastre a consequência lógica.

Ignoram-se os princípios da educação. Carece-se de experiência, e na maioria dos casos os filhos se educam ou se deformam à margem do conhecimento e da atuação de seus pais. Eles são órfãos, apesar de terem seus pais vivos (e este mal aumenta quando ambos os pais trabalham).

Como é triste o vazio dos pais em nossos lares! E mais desolador ainda é o vazio de uma sã paternidade no coração de tantos homens. A paternidade não pode ser um simples acessório em suas vidas, mas deve ser algo essencial: esta é a grandiosíssima tarefa dos homens. E será mais fecunda que todos os tratados e pactos, e mais eficaz que todos os vãos sistemas pedagógicos.

O grande pecado da sociedade moderna está na desnaturalização do lar. Hoje se vive em todas as partes, menos no lar.

Todas as coisas, todas as pessoas têm direito à inclusão na sociedade, exceto as que compõem a família.

“Volte ao lar!”: é o grito de súplica pela salvação da humanidade.

Esta volta ao lar significa não somente fazê-lo centro da vida, mas também arcar com a tarefa que nele se deve realizar, a qual, por sua vez, supõe a riqueza de virtudes que introduz o prestígio de ascendente educador à personalidade dos pais.

Saber o que se deve fazer, conhecer os métodos para realizar com perfeição a obra educadora e possuir as virtudes próprias de educador: isto também significa voltar ao lar.

O lar mede a grandeza do homem ou apresenta ainda mais claramente a sua miséria.

A intimidade com os filhos e com a esposa é profunda se se é grande interiormente, e não existe se por dentro está vazio.

Por esta razão, o primeiro programa de ação educadora consiste no esforço sincero e leal para se chegar à realização deste ideal [a intimidade com a família].

Qualidades do pai educador

Antes de falarmos de métodos de educação, temos primeiro que tratar do problema da formação do educador, porque na educação, a pessoa do educador é tudo. Não são “métodos” que formam e salvam a juventude, mas a presença de uma forte personalidade que no esplendor de suas virtudes, na serenidade de seu equilíbrio pessoal, na ternura de seu coração e na fortaleza dura e firme de sua vontade pode apresentar-se diante das crianças e dos jovens como a encarnação viva de um ideal, cuja luz ilumina, cuja irradiação subjuga, cuja compreensão eleva, cuja intimidade transforma.

Estamos vivendo uma época de técnicas materialistas, e nos sugestionamos de tal modo, que cremos que o progresso material fará tudo na vida; e estamos pagando caro por este erro, visto que a vida humana escapa quase totalmente aos progressos materiais.

Nega-se a espiritualidade do ser humano, mas não basta negá-la para que deixe de ser uma realidade. As negações são, frequentemente, posturas intelectuais, porém não são a expressão de uma realidade. E a natureza se defende contra essas negações mutiladoras da vida humana. Hoje em dia, confia-se tanto nas técnicas de pedagogia, e nunca se escreveu tanto sobre as crianças como nessas últimas décadas; e, contudo, nunca degenerou-se tanto a educação nos institutos e nas famílias.

Isto porque faltam os princípios que regem a vida, e, sobretudo, falta o exemplo.

Assim como não se produz vida com máquinas, sabendo-se que ela só é gerada por seres vivos, do mesmo modo a educação das crianças acontece ou através do exemplo luminoso dos pais, ou não acontece.

Alguns pais se enganam crendo que, pagando um bom instituto de educação (quando o fazem), já cumprem e já se veem livres de todas as responsabilidades concernentes à educação dos filhos. Não senhores! São seus exemplos, e somente seus exemplos que importam. Aqui não só estamos falando de evitar essas coisas que representam um atentado grave à moral, essas coisas que muitos creem poder ocultar por um longo tempo e que as esposas sofrem em silêncio, imolando-se ao egoísmo do pai por amor aos filhos. Não. Referimo-nos aos exemplos normais e simples, de todos os instantes, que são os que verdadeiramente deixam traços.
 
Compreender esta necessidade do bom exemplo leva necessariamente a entender que o pai que quer ser um autêntico educador deve empenhar-se decididamente por adquirir as virtudes que o farão educador. Vejamos que, enfim, não se educa pela força das teorias, nem pela imposição dos caprichos, nem tampouco pelas grandes dissertações, mas pelo exemplo quotidiano apresentado aos pequenos homens que amanhã serão o espelho daqueles que o criaram.


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Fonte: Padre Pavanetti, SDB, Vaterschaft und Autorität, Fevereiro 2001.