A educação dos filhos

Conta uma lenda que havia um caranguejo que repreendia seus filhos por caminharem torto; estes replicaram: “pai, vejamos como caminhas”. O pai caminhou diante deles, ainda mais torto que seus filhos. É isso que acontece quando um pai dá mau exemplo. Por isso não teve autoridade para corrigir os pecados dos seus, quando ele mesmo os comete.


Por Santo Afonso Maria de Ligório
Tradução: Carlos Wolkartt – Catolicidade.com

Advertência aos pais

O Evangelho nos diz que uma boa árvore não produz mau fruto, e que uma árvore má não pode produzir fruto bom. O que aprendemos disto, é que um bom pai cria filhos bons. Porém, se os pais são fracos, como seus filhos podem ser virtuosos? Porventura – disse Nosso Senhor, no mesmo Evangelho – colhem-se uvas dos espinhos, ou figos dos abrolhos? (São Mateus 7, 16). Assim é impossível, ou de fato muito difícil, encontrar filhos virtuosos, que foram criados por pais imorais. Pais, estejam atentos a este sermão, de grande importância para vossa salvação eterna e de vossos filhos. Estejam atentos, jovens, homens e mulheres que não escolheram ainda vosso estado de vida. Se desejarem casar, aprendam as obrigações que se adquirem na observância da formação de vossos filhos, e aprendam também que, se vós não observardes integralmente essas obrigações, terão sobre vós e sobre vossos filhos a condenação. Dividiremos isto em dois pontos. No primeiro, mostraremos a importância da formação dos hábitos da virtude nos filhos; e seguidamente mostraremos com que cuidado e diligência um pai deve trabalhar para que eles cresçam bem.

Educar na virtude

Um pai tem duas obrigações para com seus filhos: é obrigado a sustentá-los em suas necessidades corporais e de educá-los na virtude. Não é necessário estendermo-nos sobre a primeira obrigação, mas existem alguns pais que são mais cruéis que as mais ferozes bestas selvagens; aqueles que desperdiçam toda a sua fortuna ou bens em comer, beber e prazeres, e permitem que seus filhos morram de fome. Porém, discutiremos sobre a formação, que é a matéria de nosso sermão.

É certo que a futura boa ou má conduta de um filho depende se ele tem sido criado bem ou mal. A natureza por si mesma ensina a cada pai a participar na educação de sua descendência. Deus dá os filhos aos pais, não para auxiliarem a família, mas para que cresçam no temor de Deus, e sejam conduzidos no caminho da salvação eterna. “Tenhamos, disse São João Crisóstomo, os filhos como precioso depósito; velemos por eles com grande cuidado”. Os filhos não foram outorgados aos pais como um presente, de que se pode dispor à vontade. Os filhos foram confiados, e por esta confiança, se se perderem por negligência, os pais deverão prestar contas a Deus.

Um grande Padre da Igreja disse que, no dia do juízo, os pais terão que prestar contas por todos os pecados de seus filhos (Nota: os pecados derivados de uma má ou incompleta formação, pois há casos excepcionais de filhos muito bem educados e que, apesar disso, vivem como se não houvessem tido uma boa formação religiosa). Assim, aquele que ensina seu filho a viver no bem, terá uma feliz e tranquila morte. O que instrui seu filho, quando chegar a morte não sentirá pena, porque deixa aos seus um defensor frente a seus inimigos (Eclesiástico 30, 3-6). E poderá salvar sua alma por meio de seus filhos, isto é, pela formação virtuosa que lhes deu. “[A mulher] se salvará mediante sua maternidade” (1 Timóteo 2, 15).

Por outro lado, uma difícil e triste morte terão aqueles que somente trabalham para incrementar suas posições ou multiplicar as honras familiares, ou aqueles que só deixam a seus filhos a comodidade e os prazeres, e não lhes proporcionam valores morais. São Paulo disse que esses pais são piores que infiéis. Quem não tem cuidado com os seus, e principalmente dos da sua casa, negou a fé, e é pior do que um infiel (1 Timóteo 5, 8).

Ainda que os pais levem uma vida de piedade, contínua oração e comunhão diária, estes virão a se condenar se, por negligência, descuidarem da educação de seus filhos (Nota: Santo Afonso enfatiza a educação moral dos filhos como um dever essencial. Um descuido nisto é de uma gravidade extrema que pode comprometer nossa salvação. Uma omissão neste sentido deverá ser confessada e reparada na maior medida possível, buscando ressarcir o dano causado por meio dos conselhos, do exemplo e da oração pelos filhos, para que alcancemos o perdão de Deus por tão grave dano).

Se todos os pais cumprissem com seu dever de vigiar a formação de seus filhos, teríamos pouquíssimos crimes. Pela má educação que os pais dão à sua descendência, fazem com que seus filhos, disse São João Crisóstomo, caiam em grandes vícios; e os entregam assim ao verdugo. Assim aconteceu em um povoado: um pai, que fora a causa de todas as irregularidades de seu filho, foi justamente castigado por seus crimes com grande severidade, mais ainda que seus filhos. Grande infortúnio é para os filhos ter pais viciosos, incapazes de inculcar em sua prole o temor a Deus. Aqueles que veem seus filhos com más companhias e em brigas, e no lugar de corrigi-los e castigá-los, lhes tomam compaixão e dizem: “Que posso fazer? São jovens, espero que deixem isso quando amadurecerem”. Que palavras tão débeis, que educação tão cruel! Em verdade, esperam que quando os filhos amadureçam, cheguem a ser santos? Escutai o que disse Salomão: “Mostrai ao menino o caminho que deve seguir, e nele se manterá ainda na velhice” (Provérbios 22, 6). “Seus ossos, disse o santo Jó, serão preenchidos com os vícios de sua juventude, e dormirão com ele no pó” (Jó 20, 11). Quando um jovem vive com maus hábitos, os levará à tumba. As impurezas, blasfêmias e ódios, aos que se acostumou em sua juventude, o acompanharão até a tumba, e dormirão com ele até que seus ossos sejam reduzidos a cinzas. Corrija teu filho enquanto há esperança, senão, tu serás o responsável por sua morte (Provérbios 19, 18). É muito simples, quando são pequenos, acostumar os filhos na virtude, mas quando chegam à madureza, se aprenderam os hábitos do vício, é igualmente difícil corrigi-los.

Vejamos o segundo ponto, que é sobre os meios para formar os filhos na prática da virtude. Rogo-lhes, pais de famílias, que recordeis o que agora vos digo: da formação depende a salvação eterna de vossas próprias almas e das almas de vossos filhos.

Corrija teu filho

São Paulo nos ensina em poucas palavras, no que consiste a correta educação católica dos filhos. Disse-nos que esta consiste na disciplina e na correção. E vós, pais, não exaspereis a vossos filhos, mas educai-los na disciplina e correção do Senhor (Efésios 5, 4). Disciplina é o mesmo que regulação religiosa da moral nas crianças, e implica uma obrigação de educá-las em hábitos de virtude, por meio da palavra e do exemplo. Esta foi a maneira com a qual Tobias educou seu pequeno filho. O pai lhe ensinou desde sua infância a temer a Deus e a afastar-se do pecado (Tobias 1, 10). O sábio disse que um filho bem educado é o suporte e consolo de seu pai. Educa bem o teu filho, e ele consolar-te-á e será as delícias da tua alma (Provérbios 29, 17). Assim como um filho bem formado é a alegria para a alma de seu pai, um filho ignorante é a fonte de tristeza para o coração de seu pai; a ignorância de suas obrigações como cristão sempre é seguida por uma má vida.

Conta-se que no ano de 1248, um sacerdote ignorante recebeu a ordem de fazer um discurso durante um sínodo. O sacerdote estava muito agitado por causa do mandado, e o diabo então lhe apareceu e disse-lhe: “Os chefes da treva infernal saúdam o chefe dos paroquianos, e lhe agradecem sua negligência na instrução das almas; já que da ignorância procedem as faltas e a condenação de muitos”.

O que deve ser ensinado aos filhos

A mesma verdade é para os pais negligentes. Um pai tem a obrigação de instruir seus filhos nas verdades da Fé, e particularmente nos quatro principais mistérios.

Primeiro, que há um Deus, o Criador e Senhor de todas as coisas;

Segundo, que este Deus é Juiz, quem, na outra vida, recompensará os bons com a glória eterna do Paraíso, e castigará os débeis para sempre nos tormentos do inferno;

Terceiro, o mistério da Santíssima Trindade, isto é, que em Deus há três Pessoas; uno em essência e trino em Pessoas;

Quarto, o mistério da Encarnação do Divino Verbo, o Filho de Deus, Deus verdadeiro, que se fez Homem no ventre puríssimo da Virgem Maria e sofreu e morreu para nossa salvação.

Poderia ser admitida a escusa de um pai ou uma mãe que diz: “Eu mesmo não sei estes mistérios”? Pode um pecado justificar outro? Se sois ignorantes, então tendes a obrigação de aprendê-los, e em seguida ensiná-los aos vossos filhos. Ao menos mandai vossos filhos a um instrutor digno. Que coisa tão miserável é ver os pais e as mães incapazes de instruir seus filhos e filhas na doutrina cristã, empenhando-se em ocupações de pouca importância, e quando eles crescem, não sabem o significado de pecado mortal, de inferno ou de eternidade. Não sabem sequer o Credo, o Padre Nosso, ou a Ave Maria, os quais todo cristão é obrigado a aprender sob pena de pecado mortal.

Os pais religiosos não somente podem instruir seus filhos nestas coisas, que são as mais importantes, mas também podem ensinar-lhes o que se deve fazer em todas as manhãs. Ensinar-lhes primeiramente a agradecer a Deus por haver preservado sua vida durante a noite, e em segundo lugar oferecer a Deus todas as boas ações que farão e todos os sofrimentos que passarão durante o dia; também implorar a Jesus Cristo e a nossa Santa Mãe Maria que os preserve de todo pecado no decorrer do dia. Ensinar-lhes, ao anoitecer, a fazer um exame de consciência e um ato de contrição. Também lhes deve ensinar atos de Fé, Esperança e Caridade, a rezar o Rosário e a visitar o Santíssimo Sacramento. Alguns bons pais de família cuidam em obter um livro de meditações para lê-lo e ter oração mental comunitariamente meia hora por dia. É isto que o Espírito Santo nos exorta a praticar: “Tens filhos? Ensina-os bem... desde a infância” (Eclesiástico 7, 25). Acostumam-lhes estes hábitos religiosos desde a infância e quando crescerem, eles perseverarão neles. Acostumam-lhes à confissão e comunhão semanal.

O exemplar ensinamento da mãe de São Luís

É muito útil também difundir nos infantes, boas máximas em suas mentes. Quão ruim é que uma criança seja educada pelas piores máximas de seus pais! “Deveis, dizem alguns pais a seus filhos, buscar o aplauso e a estima de todo mundo. Deus é misericordioso, Ele terá compaixão de certos pecados”. Que miserável é o jovem que peca por obedecer tais máximas! Os bons pais ensinam máximas muito distintas a seus filhos. A Rainha Blanche, mãe de São Luís, Rei da França, costumava dizer a seu filho: “Filho meu, preferiria ver-te morrer em meus braços, antes que em pecado”. Portanto, que seja vossa prática a que também infunda em vossos filhos certas máximas de salvação, porque, de que serviria ganhar o mundo inteiro se perdemos nossas próprias almas? Tudo neste mundo tem um fim, mas a eternidade nunca termina. Uma destas máximas bem impressas na mente de um jovem, o preservará sempre na graça de Deus.

O exemplo arrasta

Contudo, os pais estão obrigados a instruir seus filhos na prática da virtude, não somente por meio de palavras, mas também com o exemplo. Se dais a vossos filhos mau exemplo, como esperais que sigam uma vida correta? Quando um jovem dissoluto é corrigido por uma falta, sua resposta será: “Por que me censuras, se meu pai faz coisas piores?”. “Os filhos dum pai ímpio queixam-se dele, pois se acham por causa dele vivendo no opróbio” (Eclesiástico 41, 10). É possível para um filho ser religioso e moral quando tem como exemplo o de seu pai, de blasfêmias e obscenidades, quando passa o dia inteiro nos bares, nas casas de jogo, quando frequenta casas de má fama, e defrauda a seu vizinho? Esperais que vossos filhos sigam frequentemente a confissão, quando vós mesmos apenas vos aproximais do confessionário uma vez ao ano?

Conta uma lenda que havia um caranguejo que repreendia seus filhos por caminharem torto; estes replicaram: “pai, vejamos como caminhas”. O pai caminhou diante deles, ainda mais torto que seus filhos. É isso que acontece quando um pai dá mau exemplo. Por isso não teve autoridade para corrigir os pecados dos seus, quando ele mesmo os comete.

De acordo com Santo Tomás, os pais escandalosos obrigam, de certa maneira, seus filhos a levarem uma má vida. Disse São Bernardo: “Não são pais, mas assassinos, não de corpos, mas das almas de seus filhos”. É muito comum ouvi-los dizer: “Meus filhos têm má disposição por nascimento”. Isto não é verdade. Sêneca dizia: “Equivocas-te se pensas que os vícios nascem conosco; estes se enxertam”. Os vícios não nascem com vossos filhos, mas lhes são comunicados por meio do mau exemplo dos pais. Se houvésseis dado bom exemplo a vossos filhos, não seriam os viciosos que são. Portanto, pais, frequentai os Sacramentos, aprendei com os sermões, rezai o Rosário todos os dias, abstende-vos da linguagem obscena, da detração, dos pleitos, e vereis que vossos filhos seguem vosso exemplo. É de particular necessidade que formeis vossos filhos na virtude, desde a infância, instruindo-lhes a mente desde a pequenez, porque quando eles crescerem, e contraírem maus hábitos, será muito difícil para vós emendar suas vidas por meio de palavras.

Evitar as ocasiões de pecado para vossos filhos

Para formar os filhos na disciplina do Senhor, é também necessário afastá-los da ocasião de fazer (ou cometer) o mal. Um pai deve proibir seus filhos de saírem pelas noites, de irem a uma casa na qual sua virtude está em perigo, ou terem más companhias (Nota: Que diria este santo – hoje em dia – dos filmes obscenos, da pornografia na internet e de muitas programações televisivas que os filhos assistem por descuido total dos pais? Que diria das revistas e livros impróprios que os próprios pais levam para casa e deixam à mão de todos?). Expulsa, disse Sara a Abraão, esta escrava e o seu filho (Gênesis 21, 10). Sara desejava que Ismael, filho da concubina Agar, fosse apartado de sua casa, para que seu filho Isaac não aprendesse com ele seus vícios. As más companhias são a ruína dos jovens. Um pai deve não somente afastar de seus filhos o mal do qual é testemunha, mas também prevenir a conduta de seus filhos e informar-se sobre as famílias e os lugares que frequentam; vigiar suas ocupações e companhias. Um pai deve proibir seus filhos de levarem para casa objetos roubados. Quando Tobias escutou balidos dum cabrito em sua casa, disse: “Vede, não seja furtado, restituí-o a seus donos” (Tobias 2, 21).

Os pais devem proibir a seus filhos toda classe de jogos que trazem destruição às famílias e às suas almas, e também os bailes, os entretenimentos sugestivos, as conversações perigosas e as festas de prazer. Os pais devem quitar de suas casas as novelas de romance que pervertem os jovens e todos os maus livros que contêm máximas perniciosas, contos obscenos ou de amor profano. O pai não deve permitir que suas filhas fiquem a sós com homens, sejam eles jovens ou velhos. Alguém dirá: “Este homem que cuida da minha filha, é um santo”. Os santos estão no Céu, porque os santos que estão na terra são carne e se estão próximos às ocasiões, podem converter-se em demônios.

Outra obrigação dos pais é corrigir as faltas da família. “Instruí-lhes na disciplina e correção do Senhor”. Existem pais que quando são testemunhas das faltas que se cometem na família, permanecem em silêncio. Por medo de desagradar seus filhos, alguns pais se recusam em corrigi-los, mas, se vissem um filho numa piscina em perigo de afogamento, não seria cruel tomar-lhe pelos cabelos e salvar-lhe a vida? Aquele que poupa a vara quer mal ao seu filho (Provérbios 13, 24). Se ameis a vossos filhos, corrijai-los, à medida que cresçam castigados, com a vara, quantas vezes for necessário.

Corrijai-los como pais, não como carcereiros

Disse que com a vara e não com um pau, deveis corrigi-los como um pai e não como um carcereiro. Deveis ter cuidado de não lhes golpear com paixão, porque então vós estais em perigo e a correção será sem fruto, pois se lhes golpeia com muita severidade, eles verão que o castigo é o efeito da ira e não o desejo de vossa parte por emendar suas vidas. Temos algo mais a acrescentar, que vós deveis corrigi-los enquanto estão crescendo, para que quando eles alcancem a madurês, vossa correção seja pouca. Deveis abster-se de corrigi-los com a mão, caso contrário serão perversos e perderão o respeito por vós. De que serve usar injúrias e imprecauções ao corrigir os filhos? Priva-lhes de algum alimento, de algumas peças do vestuário, ou envia-lhes a seu quarto.

Temos dito o suficiente. A conclusão deste sermão, é que aquele que educa mal seus filhos, será severamente castigado, e aquele que os educa na virtude, receberá uma grande recompensa.